INSÍGNIA E LEMA

INSÍGNIA E LEMA
CONQUISTANDO OS CORAÇÕES SE VENCE A LUTA
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terça-feira, 1 de abril de 2014

XXXI - MOXICO, DESTINO FINAL

Finda a Operação, regressámos à Estação de Cangumbe, para onde convergiram todas as Companhias do Batalhão. Novo Comboio Especial nos esperava para nos transportar para a Estação do Luso, cidade hoje denominada de Luena – nome do Rio muito próximo, afluente, pela margem direita, ainda em Angola, no Cazombo, do grande Rio Zambeze, que atravessa vários países, inclusive Moçambique –, capital do Distrito do Moxico, nosso destino final. Aproveito para procurar de novo o “Tatarelho” mas, mais uma vez, estava ausente … tinha ido a Silva Porto, a uma Consulta Médica. Nunca mais o encontrei … até aos dias de hoje. Não sei se ainda é vivo. Espero que sim.

Estação ferroviária do Luso
A mesma Estação, na atualidade

                        




                                                     
Chegados finalmente à Estação do Luso ficamos a saber que a nossa missão consistiria em dar proteção à construção duma estrada - com introdução de melhoramentos da picada já existente, nomeadamente o seu alargamento e corte de algumas curvas, para posterior alcatroamento - que liga o Luso a Vila de Gago Coutinho, localidade já muito próxima da fronteira da Zâmbia, a uns bons quilómetros abaixo do conhecidíssimo Quadrado do Cazombo, como era (ainda é) designado o território angolano que penetra no da Zâmbia, em termos geográficos. Distribuição das Companhias? É-nos dito que, para compensar o nosso isolamento nas Terras-do-Fim-do-Mundo durante quase um ano, a Companhia 2506, a minha Companhia, ficaria instalada dentro da BTR, Bataria de Artilharia de Campanha, nas imediações da cidade do Luso. As outras – CCS, 2504 e 2505 – iriam ser distribuídas ao longo dessa estrada, perigosamente conhecida pelas suas minas e emboscadas constantes, área cuja guerrilha atuante era a da UNITA e do MPLA, que se guerreavam mutuamente. As Companhias do Batalhão instalariam bases fixas, a 2505 no Canaje e a CCS, juntamente com a 2504, mais a sul, no Lucusse, e as suas tropas deslocar-se-iam na tarefa predeterminada, acompanhando as obras à medida que estas progredissem na quilometragem.

Cidade do Luso, totalmente plana
Estrada a melhorar e a proteger




         
                                                                         

               


Avançaram para a Estrada, rumo ao seu destino, e nós dirigimo-nos para a BTR em cujas instalações só havia lugar para as Praças. Como a distância ao Luso é de pouquíssimos quilómetros, os Graduados, não estando de serviço, teriam que dormir fora desse Quartel, pelo que houve necessidade de providenciar por alojamento. Havia um Hotel destinado a Oficiais, mas quase sempre lotado, pelo que os restantes Graduados e os que lá não conseguiram lugar procuraram alugar uma casa. Foi o que fiz, conjuntamente com outros, portanto, em grupo. O edifício ficava situado mesmo ao lado do do Comando da ZIL – Zona de Intervenção Leste – cujo Comandante era o então Brigadeiro Bettencourt Rodrigues, que, posteriormente, em 1973, já com o Posto de General, substituiu o General Spínola no CTI Guiné. Curiosamente, os quartos estavam colocados contiguamente ao Posto de Transmissões do Comando, apenas separados por uma parede, pelo que ouvíamos permanentemente os “cânticos” dos Operadores no som monótono de mensagens … até nos habituarmos a ele e já não nos incomodar.

Igreja
Luso Hotel




                 
                                                                                                              




Ironia do destino: na área do Lucusse, onde a UNITA fez várias emboscadas a pessoal nosso e colocou minas, foi precisamente o local onde Jonas Malheiro Savimbi haveria de ser abatido em 22.02.2002 pelas FAPLA (Forças Armadas Angolanas após a Independência). É no Cemitério do Luso (agora Luena) que ele se encontra sepultado.

Carlos Jorge Mota

XXX - BOFETADA … EM PLENA MATA

Almoçados no Quartel de Cangumbe, com carregamento de víveres e mais munições já efetuado, eis-nos de novo na picada de retorno ao aquartelamento em bivaque, logo, temporário. Dispositivo devidamente adequado para vencer os 180 quilómetros, de intenso stress perante uma eventual emboscada a todo momento.  

Contratempo por viatura atascada
Chegámos ao destino já noite cerrada - pois em África escurece muito cedo -, após umas seis horas de viagem, com várias paragens pelo meio, pois algumas viaturas atascaram naquele terreno lodoso face à chuva caída.
Cansados, pela viagem, pelo esforço despendido nas ações de desatascamento e pelo próprio stress, a nossa vontade premente era ir jantar e descansar. O Capitão Santana manda-me chamar e diz-me: “Mota, é preciso descarregar já as viaturas porque elas vão ser precisas às 5 horas da manhã para saída em Operações!”. Dirijo-me ao pessoal, ainda aguardando ordem de destroçar, e transmito a necessidade de momento. Todos imediatamente deram início ao descarregamento das Berliets, transportando o seu conteúdo para o local respetivo, consoante o tipo de material em causa. Mas … há sempre um mas em tudo. Um deles, Soldado com especialidade específica, talvez por entender que só aos Atiradores incumbia essa tarefa, disse que estava cansado e com fome e que iria comer alguma coisa e descansar. Disse-lhe que não podia de modo algum abandonar o local sem a tarefa terminada e que todos nós nos encontrávamos em igual situação e que todos pretendíamos o mesmo desejado descanso. Mas havia aquela incumbência prioritária. Desobedecendo às minhas ordens, virou costas e foi para a sua tenda … enquanto os camaradas cumpriam o estabelecido. Fui no seu encalço, procurando sensibilizá-lo para o que estava em causa e despertá-lo para a realidade. Estava eu agora a fazer instintivamente um balanceamento perante uma insustentável atitude, sob o ponto de vista militar, e uma compreensível causa humana. Fui treinado para obedecer e fazer-me obedecer, pois ordens são ordens. É essa a essência da disciplina militar sem a qual não há Exército. Entrei na tenda com a minha G-3 em bandoleira e ele já havia pousado a sua. Qual é o meu espanto quando o vejo “crescer” para mim. Fiz-lhe frente e espetei-lhe uma valente bofetada na face e agarrei-o pela camisa. Ele soltou-se e correu para pegar na sua arma. Retirei imediatamente a patilha da posição de Segurança da minha e fiquei expectante. Outros Soldados acorreram logo e imobilizaram-no. Entrou num choro convulsivo, como uma criança, e agarrou-se a mim a pedir desculpa. Talvez não tivesse aguentado o stress sofrido naquelas horas… Disse-lhe: “Sr. R…, dado o seu atual estado psicológico, fica por mim dispensado de ir descarregar as viaturas”, e retirei-me. No dia imediato, o Capitão Santana, sabedor da ocorrência, desconheço por que via, disse-me para apresentar uma participação, porque queria punir o Soldado. Disse-lhe: “Meu Capitão, desculpe, mas não apresento essa participação”“É uma ordem que lhe estou a dar!”, retorquiu de imediato. “Ele já recebeu uma punição, não vai receber duas pelo mesmo ato. Então vai ter que me punir a mim, porque não vou apresentar nenhuma participação”, respondi. O assunto morreu ali. Vim a saber posteriormente que o Capitão Santana teria dito a alguém que ambos deveríamos ser punidos. Como essa suposta afirmação é incompatível com o que me ordenou, a ser verdadeira, só teria sustentação pelo desconhecimento das circunstâncias do sucedido. Desse ato resultou, daí para a frente, uma amizade muito forte entre o Sr. R… e eu próprio. Hoje, fazendo uma retrospetiva, e recolocando-me no contexto, penso que a minha atitude não deixou de ser correta, embora admita que outros possam não a compreender e interpretá-la até como uma prepotência. Apesar de ele ser daqui da área do Porto, nunca mais o encontrei, mas tenho a certeza que a nossa amizade se terá fortalecido e tornado perene. Gostaria de lhe dar um abraço franco e fraterno.

Carlos Jorge Mota

XXIX - MISSA ... EM ZONA DE GUERRA

Percurso feito com alguma precaução, velocidade lenta pois a picada tinha muitos buracos e formato irregular, e, finalmente, decorridas umas três a quatro horas, chegámos ao local onde bivacámos. Como se previa um período de permanência de, pelo menos, uns quinze dias, após montagem da respetiva segurança, tomaram-se as providências para que instalações com um mínimo de condições se assegurassem, nomeadamente a armação de tendas cónicas, triangulares e retangulares, para acomodação do pessoal, de Géneros Alimentares – incluindo Rações de Combate -, Transmissões, Enfermagem e os demais serviços. Um pouco afastado, mas dentro do perímetro de vigilância permanente, abriram-se latrinas onde se colocaram tábuas para serventia simultânea.

Terreno com inclinação e de vegetação rareada
Entretanto, como se aproximava a data que perfaria 30 dias da morte de meu pai, pelos canais próprios de transmissões, solicitei autorização para contacto com o Capelão do Batalhão, Padre Serra, graduado em Alferes (vive atualmente nos Açores, segundo fui informado), e que se encontrava com o pessoal da CCS, noutro local. Perguntei-lhe se se disponibilizaria para vir à Companhia 2506 e dizer uma Missa em 14 de setembro, isto é, 30 dias após o falecimento de meu pai - 16 de agosto, esse mês tem 31 dias e o dia da morte já conta para este efeito. “Claro que vou, pá, é só combinarmos como!”. Daí a uns dias, eu teria que me deslocar em coluna para fazer um reabastecimento no Quartel de Cangumbe, que, antes da Operação, havia sido instruído para aumentar o  seu Nível de Abastecimento (os denominados Níveis e Avanços) pois seria a partir de si que o nosso Batalhão se forneceria. Ele deslocou-se a esse quartel num reabastecimento da CCS, ficou lá um dia, e eu trouxe-o na minha coluna de reabastecimento, que teve lugar no dia seguinte. Aproveitei para me encontrar com o “Tatarelho”, mas, por mera coincidência, ele tinha saído também para Operações. Gorado o contacto, portanto.
Dirigi-me à loja dum Cantineiro (indivíduo que vive no Mato vendendo topo o tipo de artigos - como antigamente se procedia nas nossas aldeias -, principalmente aos indígenas, mas não só) para comprar uns artigos que Camaradas me tinham solicitado. Entro na loja e ele, que estava a falar em português com um nativo, imediatamente começa a falar no dialeto, que dominava bem. Percebi logo que estava a “enrolar” o homem e, óbvio, não queria que eu entendesse … Era essa a maneira de “negociar”, muitas vezes recebendo o pagamento em géneros cujo valor … era ele que avaliava!...
O Padre Serra ficou uns dias connosco, até porque o ministério sacerdotal é genérico e universal, portanto, não só confinado à sua CCS. Montou-se um “altar” improvisado com a tampa do motor duma Berliet, assente em estacas de madeira, e, na sua retaguarda, simulando o fundo da “capela”, tudo por ele idealizado, colocaram-se cordas presas ao chão que convergiam na parte superior para um só prego numa árvore. Ficou  com um aspeto digno de registo para a posteridade. Tirei fotografia mas … revelei depois em slide, que, com o decorrer do tempo, já se deteriorou. Houve pessoal que aproveitou para assistir a essa missa, independentemente da razão da sua origem. Apesar de eu não ser pessoalmente um Ser muito crente, nestes momentos em que estão em causa entes queridos, a obrigatória tradição tem muito peso.
No reabastecimento imediatamente seguinte, ele fez comigo o trajeto inverso e regressou à CCS. Homem generoso, bom e corajoso. Posteriormente, já no Leste, deslocando-se do Lucusse para o Luso, a viatura em que seguia, quase no fim da coluna, acionou uma Mina Anti-Carro cujo dispositivo de percussão era ministrado por roda dentada, o que significa que só rebenta quando ela atinge o ponto predefinido. Felizmente, e porque muitos sacos de areia eram sempre bem acondicionados, só houve danos materiais e umas escoriações ligeiras no pessoal que se fazia transportar nessa Berliet. Para além duma surdez temporária …
No fim do regresso, ao local de bivaque, desse reabastecimento que fiz ao Quartel de Cangumbe, vi-me envolvido numa situação inusitada com consequências tremendamente … anómalas, direi mesmo, aberrantes.

Carlos Jorge Mota

XXVIII - O TATARELHO APONTA-ME A G-3

Chegados à Estação de Cangumbe, acampámos na zona exterior à Unidade ali instalada, fora do arame-farpado, num terreno desmatado e ligeiramente inclinado para o lado da via-férrea. Partiríamos cedo, pois o nosso objetivo distanciava daí uns cento e oitenta quilómetros para norte, a percorrer por picada perigosa dada a forte presença do IN nas imediações, zona da UNITA, terra-natal do seu Chefe. Feita a necessária segurança, em semi-círculo, pois de um dos lados situava-se o Aquartelamento de Quadrícula, procurámos descansar e dormir algumas horas, nos nossos sacos-cama.

Quartel em Cangumbe
Já bem noitinha, após ter dormido um pouco, sinto uma enorme vontade de satisfazer necessidades fisiológicas primárias. Se fosse reequilibrar fluidos, seria fácil, mas não, era mais completo. “E agora? Onde vou?” Sair do perímetro de segurança, naquela escuridão, seria desaconselhável. Lembrei-me, então: “e por que não ir dentro do Quartel aqui mesmo ao lado? “. Eles, por razões óbvias militares, de noite tinham uma pequena zona, virada para a Estação, e dentro do arame-farpado, permanentemente iluminada. A sentinela, desse lado, estava postada no interior duma fortificação tipo casamata, e quem para lá olhasse via unicamente a ponta do cano da espingarda, mas ela (sentinela) avistava tudo para fora. Eles tinham conhecimento que estava ali tropa. Todavia, há que preservar as elementares regras de segurança. Logo que me aproximo do arame para transpor a entrada, ouço uma voz, cumprindo o regulamentado: “Quem vem lá faz alto!”, mantendo a Espingarda-Metralhadora G-3 apontada para mim. Parei, disse que era da Companhia de Caçadores que estava no exterior e que precisava de ir ao WC. Cito o meu Posto e o meu Nome, e ele, mais uma vez, em obediência às regras estabelecidas, ordena categoricamente: “Avance ao reconhecimento!”. Ando uns passos e entro na zona iluminada. É então que ouço uma voz dizer, duma forma eufórica: “Oh Mota, estás aqui?”. Tratava-se de um rapaz que andou comigo na Escola Primária cujo nome não sabíamos porque lhe chamávamos “O Tatarelho”, dado que ele se exprimia duma forma muito peculiar. Ficou conhecido com essa alcunha, mas também não considerava isso um anátema e convivia bem com a situação. Acabada a Escola Primária, não pertencendo ele ao grupo de privilegiados que foi estudar, contrariamente à minha pessoa, com 10 anos começou a trabalhar, e nunca mais o vi, pois cada um seguiu o seu destino. Abraçámo-nos com visível emoção … sem ele abandonar o seu posto e vigilância, obviamente, e lá fui eu ao meu desiderato.
Manhã cedo, com uma das Berliets à cabeça da coluna, por evidente prevenção de eventuais minas na picada – a viatura pesada logicamente tem maior poder de absorção do impacto do engenho, mas também protegida com inúmeros sacos de areia, tal qual as viaturas ligeiras Unimogues – arrancámos para o local previamente definido onde iríamos bivacar para, daí, a Companhia efetuar as Operações Militares previamente definidas e cujo PC (Posto de Comando) se encontrava na CCS do Batalhão.

Carlos Jorge Mota

XXVII - CAMINHADA PARA O LESTE

Com destino já programado para o Leste, mais propriamente para o Distrito do Moxico, abalámos numa manhã cedo dos princípios de setembro de 1970 para Nova Lisboa, pela estrada alcatroada utilizada normalmente pelo tráfego civil uma vez que fica fora de área de atuação do IN. Parámos novamente em Quibala para um ligeiro descanso durante o qual se almoçou a Ração de Combate, completa, pois sabia-se que à chegada à capital do Distrito do Huambo haveria uma ligeira refeição quente à nossa espera, sopa pelo menos, num dos Quartéis onde pernoitaríamos. Aproveitei para ir a um Quimbo (Mosseque) que estava muito próximo e tirar umas fotografias com gente nativa, muito afável e prestável.

Macaquinho muito brincalhão


Moendo o pirão
Retomada a marcha e chegados à tardinha a Nova Lisboa, atestaram-se viaturas num dos Aquartelamentos na denominada Zona dos Quartéis, concretamente no R.I. 21, comemos uma sopinha quente e fomo-nos recolher pois o dia seguinte iria ser árduo.
Alvorada tocada, dirigimo-nos para a Estação de Caminho de Ferro de Nova Lisboa do CFB - Caminhos de Ferro de Benguela, que liga a Vila de Teixeira de Sousa, na fronteira com o Congo ex-Belga (Zaire), ao Porto de Benguela (e que tem continuação para o Porto do Lobito), e que é utilizado por aquele país para escoamento marítimo dos seus produtos daquela sua área geográfica, nomeadamente minérios. Na Estação tínhamos um Comboio Especial já à nossa disposição no qual carregámos as viaturas, pesadas e ligeiras, e todo o material que necessitávamos, incluindo armamento e munições – tarefa trabalhosa e bastante demorada.



                               
A viagem até à localidade definitiva, cidade do Luso, no Moxico, nosso destino final, iria ser feita em duas fases, dado que uma Operação de alguns dias, na zona do Munhango, Distrito do Bié, estava já programada, envolvendo todo o Batalhão, com as suas Companhias dispersas por uma área alargada, na zona de atuação da UNITA, precisamente na localidade onde nasceu o seu Comandante-em-Chefe, Jonas Malheiro Savimbi, cuja captura, a concretizar-se, seria um troféu preponderante. O comboio habitualmente fazia todo o percurso precedido duma Draisine, um pequeno veículo, totalmente blindado, que também era usado para Serviço de Obras na via, mas que ali desempenhava a função de detetar a eventual colocação de minas ou armadilhas, situação muito pouco provável atendendo a que o próprio Zaire não estava interessado na desestabilização deste importante braço escoador marítimo das suas mercadorias e impunha as suas regras aos Movimentos de Guerrilha que apoiava (FNLA, no Norte, e UNITA, no Leste), bem como a própria Zâmbia, que apoiava o MPLA, e que também utilizava esta via ferroviária, atravessando previamente território zairense.
Decorridas umas 4 a 5 horas de viagem, com algumas paragens pelo meio, chegámos finalmente, já pelo fim da tarde, ao nosso destino provisório: Estação de Cangumbe, em cuja proximidade a nossa Companhia iria atuar em Operações, pelo que foi necessário efetuar todo o processo inverso, isto é, descarregar viaturas e material.
Mesmo junto à Estação existia um Aquartelamento das NT, fortemente guarnecido, que, enquanto permaneceu dia, e depois de findos todos os procedimentos, para liberação do Comboio, nos permitiu alguma descompressão na respetiva Cantina e beber umas cervejas, que o calor apertava.

Carlos Jorge Mota

XXVI - OPERAÇÕES AO NORTE EM MATA CERRADA

Rendido já o Batalhão no Serviço à Rede de Luanda e colocado às ordens do QG (Quartel General) como reforço, somos escalados para duas Operações na zona do Zenza do Itombe, área de mata serrada, selva plena. Numa dela, a primeira, marcham dois Grupos de Combate da minha Companhia, que entraram no terreno pelo lado norte, operação conjugada com outras Unidades quer de quadrícula quer especificamente deslocadas para lá para o efeito. Na segunda, passados uns quinze dias, já a nível de toda a Companhia, mas a entrada na selva fez-se, desta vez, pelo lado sul, oposto portanto à da primeira.

Rio Zenza 
Matando o tempo, num intervalo, sentados em cunhetes de munições.
Riachos, o homem de pé, Operador de Transmissões, que recentemente
nos deixou, após inúmeras Confraternizações que ajudou a abrilhantar

                                                                                                                                                                         
Estas Operações Militares envolviam, por norma, grandes efetivos, de múltiplas áreas de ação e com objetivos diferentes no terreno: uns com função de nomadização, outros com tarefas de emboscadas e outros ainda para Golpes de Mão, ou seja, assaltos repentinos aos aquartelamentos do IN referenciados.
Chegados ao nosso destino – cada Companhia tinha o seu ponto de estacionamento -, instalámos, montámos segurança e pernoitámos, pois a ação conjugada só teria lugar ao alvorecer do dia seguinte.
Deito-me dentro do meu saco-cama, com a arma ao meu lado, junto a um barranco com um desnível brusco de cerca duns 7 metros, mas afastado da orla da mata aí uns bons 20 metros, a fim de me salvaguardar duma eventual visita inesperada noturna duma jiboia ou bicho semelhante. Estávamos em alerta máximo contra todos os perigos, quer do inimigo humano quer animalesco. Adormeci quase de imediato, mas havia pessoal de vigia permanente. Passado um tempo que eu julguei ser de pouquíssimas horas, mas, resultante do cansaço e do stress pelos riscos da viagem, o alvorecer já despontava. Subitamente, ouço, mesmo ao meu lado, dois rebentamentos estrondosos. Pensei: - “duas morteiradas estão a cair-nos em cima”. Pego na arma, fico na expectativa da evolução da situação e, de repente, ouço: “Fogo!”. Eram dois obuses do pessoal de Artilharia que chegou já depois de eu adormecer, instalados precisamente no topo do terreno ao qual eu me encontrava encostado. Eu não os vi chegar nem os vislumbrava agora. Só quando me pus de pé.
Selva completamente cerrada, a Artilharia estava a bombardear zonas previamente marcadas na Carta Militar a fim de obrigar o IN a deslocar-se para pontos onde se encontravam as NT emboscadas. Tática operacional normal.
Acabada a Operação, regressámos ao Grafanil, onde iríamos fazer os preparativos para uma nova grande viagem, agora até ao Leste de Angola.

Carlos Jorge Mota

XXV - REGRESSO AO BATALHÃO A LUANDA E … NOTÍCIA ARRASADORA

Depois de cerca de um ano de separação do nosso Batalhão, finalmente regressámos ao seu seio. Marchámos para Luanda novamente por estrada alcatroada, fora de zona de atuação do IN, mas com percurso ligeiramente diferente do da vinda para Serpa Pinto: tomámos a via de Chitembo, em vez de Artur de Paiva, e passámos pelo Chinguar, muito perto de Nova Lisboa. Parámos finalmente em Quibala para reabastecimento na Unidade de quadrícula de lá, onde pernoitámos. Dia seguinte, logo pela manhãzinha, arrancámos com destino final ao Grafanil, com passagem pelo Dondo, linda localidade nas margens do Rio Lucala, que ali se junta ao Rio Cuanza, de que é afluente. Finalmente juntos, de novo, na capital. E refeição quente à nossa espera, após mais dois dias a Ração de Combate.


Em Quibala

 Somos então sabedores que a vida das outras Companhias, sob o ponto de vista de atuação militar, tinha sido bastante dura durante aqueles meses da nossa ausência. A CCS, através do seu PelRec (Pelotão de Reconhecimento), que incluía uma Secção de Sapadores (homens especializados em Minas e Armadilhas), tinha sido destacada inúmeras vezes para missões ao Norte de Angola, embrenhando-se em plena zona de Selva, suscetível de contactos frequentes com o IN, fosse a fazer escoltas aos denominados MVL’s (Movimento de Viaturas Logísticas),  isto é, colunas de camiões civis transportando toda a logística, quer a militar quer a destinada à atividade civil normal das localidades por onde passavam, fosse também em tarefas de fornecimento de Mantimentos e Munições a Unidades mais isoladas. As outras duas Companhias Operacionais,  a 2504 e a 2505, também ficaram incumbidas de ações bem perigosas, nomeadamente do controlo de áreas das margens do Rio Dange, de cuja ponte principal ficaram alguns meses a manter segurança. Tiveram aí diversas baixas, quer em mortos quer em feridos.
Fazendo uma comparação objetiva, concluímos então, nesse momento de chegada, que a nossa Guerra até tinha sido menos penosa, apenas o isolamento de centenas de quilómetros a sul da civilização nos foi muito adverso.
Como tomámos logo conhecimento que iríamos ser destacados a curto prazo para Operações no Norte e que brevemente nos seriam apontados novos destinos definitivos, procurámos tirar partido da vida de Luanda o máximo possível, principalmente da noturna, até porque a quase totalidade do pessoal (não foi o meu caso, pois tive férias nesse período) já não via uma mulher há muitíssimos meses.
Eu, pessoalmente, voltei a aboletar-me em casa do tio do meu amigo de infância Francisco Fontes, pertinho da Vila Alice, para minha melhor comodidade e, principalmente, para convívio tipo familiar. Só que o Fontes estava já perto do fim da sua Comissão … mas também eu brevemente voltaria para o Mato, com o final da minha ainda a uns 10 meses de distância temporal.
Dia 29 de agosto de 1970, estando nós os dois a conversar, digo-lhe eu: “eh pá, não sei o que se passa, não recebo carta nem de casa nem da Vitória (minha namorada) há um bom par de dias”. Ele ficou tenso, reflexivo, até que disparou: “olha lá, tu tens que saber e tens que saber mesmo: o teu pai faleceu. Recebi há uns dias a notícia de minha casa”. Meu pai tinha partido para a sua última viagem no dia 16 anterior. Uma carta do Porto para Luanda demorava, nessa altura, dois dias a chegar ao destino, no máximo três. No dia seguinte à expedição estava em Lisboa e seguia no avião da TAP, diário, logo de imediato. Os CTT estavam instruídos para dar prioridade ao Correio destinado a Militares pois é dos livros que a Retaguarda de qualquer Guerra é fundamental para manter o elevado espírito moral das Tropas. E um destinatário militar era distinguido pela sua visível designação. Era escrito o Posto, o Nome e o Código do S.P.M. (Serviço Postal Militar). A cada subunidade (Companhia) era atribuído um número composto por 4 algarismos, sendo que o último se reportava à Região Militar respetiva ou ao CTI (Comando Territorial Independente)  Guiné, que era 8. No caso de Angola era 6. O meu S.P.M. era o 7416.
Foi um choque terrível no meu coração, embora a notícia não fosse propriamente inesperada. Fomos ao cinema nessa noite, eu tentando espairecer um pouco a minha cabeça e ele a fazer a descompressão por algo muito dificultoso que tinha para narrar …

Carlos Jorge Mota

XXIV - REVELAÇÃO ESTUPEFACTA

Atravessado o Rio Cuito, no Rito, através da LDM, eis-nos novamente na picada a caminho das instalações do Destacamento dos Fuzileiros Navais (Marinha) em Vila Nova da Armada, perto do Baixo Longa, ainda a uns bons quilómetros de distância a percorrer.

 
Com um Camarada conterrâneo (de Gondomar)
O Temudo e o Autor. Atrás, os mecânicos Reis e Nuno



                                                         














Somos recebidos como só os Fuzos sabem receber. Os nossos anfitriões acamaradaram connosco duma forma muito calorosa, procurando que nada nos faltasse e que saciássemos a fome resultante de vários dias a Ração de Combate. De comida e … principalmente de bebida, de tal forma que tive que levar o Serginho (nome por que o Sérgio Lopes era carinhosamente por nós designado) – posteriormente meu colega na Filial do Porto do Banco Pinto & Sotto Mayor, colocado no Contencioso – ao colo para a cama e despi-lo, tal era o seu estado de … desequilíbrio. Mas não foi o único. Os Fuzileiros só deixavam de nos encher o copo quando se apercebessem que tinham atingido o objetivo … Permanecemos lá um dia, para retemperar forças e atestar viaturas.
Na conversa decorrente da amena cavaqueira prolongada até de madrugada, quando são sabedores da Companhia a que pertencíamos, um 1º Sargento dispara: “Ai vocês são da Companhia de Caçadores 2506?”, “Ah, seus malandros, então eram vocês que queriam dar-nos uns tiritos?”. Narra então algo que desconhecíamos em absoluto.
Numa das operações realizadas na zona de Mavinga, ainda permanecendo na Coutada do Mucusso, o pessoal da nossa Companhia teve como missão fazer uma nomadização (“bater” uma designada área de modo a empurrar o IN) na margem esquerda de determinado rio, pois tropa de outras unidades encontrava-se emboscada uns quilómetros mais a montante na intenção de os intercetar e neutralizar. O Héli prepara-se para largar o pessoal e, então, o Guia, que seguia junto, disse que esse rio não era o certo, esse era o Rio X, e não o nosso. O piloto afirmou que estava na posição correta, no Rio Y, segundo o mapa que exibia. Prevalecendo a afirmação do homem aos comandos – por vezes os Guias deliberadamente induziam em erro, sendo óbvio, nesses casos, que estariam “feitos” com eles - , o pessoal salta e inicia a nomadização. Isto foi o que aconteceu.
Agora a versão dos Fuzos: “estávamos nós a fazer uma nomadização no Rio X quando, ao terceiro dia, nos apercebemos dumas pegadas em linha, tipicamente ‘batendo’ um terreno. Ora os ‘turras’ não andam em linha, mas sempre em bicha-de-pirilau” (designação militar para a fila-indiana). Esse 1º Sargento, que comandava o Grupo, homem experiente neste tipo de Guerra, já tinha duas Comissões no “papo”, uma das quais na Guiné. E continua a narração: “Ligo para o PC (Posto de Comando) e pergunto se anda ali mais tropa”. Resposta obtida: “não! Só andam vocês! Portanto, tudo que mexa é para abater!” (não havia população ali). Desconfiado, transmite ao seu pessoal que algo não estava a bater certo. E continua: “de repente, detectámos miolo de pão no chão. Ora os ‘turras’ não têm pão. Andava ali tropa nossa, com toda a certeza. Redobrámos o cuidado e avistámos, então, pessoal ‘nosso’ a abastecer-se de água, indo um de cada vez encher o cantil ao rio. Tivemos o Morteiro apontado para lá, antes de nos certificarmos que era mesmo gente nossa. A operação, para nós, parou aí. Será que nós estamos em terreno errado? Questionei-me eu! Aguardámos o tempo que faltava, que era só mais um dia, e deslocámo-nos para o local previamente combinado para a recolha. Procurei indagar depois quais as unidades envolvidas nesta Operação e soube que nela estava a Companhia de Caçadores 2506. Algo de anormal tinha acontecido”. Conclusão então tirada: o Guia afinal estava mesmo certo e quer os Fuzos quer o pessoal da nossa Companhia foram largados no Rio Y. Constou-se, segundo disseram, que, posteriormente, tinha sido levantado um Processo de Averiguações ao Piloto da nossa Força Aérea. Constou-se!...
Colocados de novo na picada, aí vamos nós para Serpa Pinto, capital do Distrito de Kuando-Kubango, onde chegámos ao anoitecer. O pessoal da primeira metade da nossa Companhia, contrariamente ao que pensávamos, já estava em Luanda, junto do Batalhão a que organicamente pertencíamos.
Apresentámos-nos no Comando do Batalhão a que tínhamos estado adstritos, para uma despedida formal, como mandam as regras militares, e aí permanecemos dois dias. E dissemos finalmente adeus às Terras-do-Fim-do-Mundo.

Carlos Jorge Mota

XXIII - MARCHA PARA SERPA PINTO

Coluna formada, lá vai o pessoal da segunda metade, sem Rádios nem Bússolas - que ficaram na Coutada entregues à Companhia que nos rendeu -, com uma Berliet na frente da marcha, por razões óbvias de segurança,  rumo ao Destacamento da Coutada do Luengue, local da nossa primeira pernoita. Recolhido o nosso Grupo de Combate já entretanto rendido pelos noviços, aí vamos nós, logo pela manhãzinha, pela picada que liga ao Rito, muitos quilómetros à frente, onde nos aguardará uma LDM (Lancha de Desembarque Média) da Marinha, com hora marcada para o dia seguinte. Ao anoitecer, o Capitão Santana ordena que paremos para descanso e também por razões de segurança. Embrenhamo-nos na mata, ainda tipo savana. Ao clarear, toca a acordar o pessoal para retoma da viagem. Apercebo-me que o Capitão está um pouco irrequieto, tenso mesmo. Tinha suficiente confiança com ele, respeitando-o, obviamente, quer como Comandante quer como humanista que sempre demonstrou ser. Pergunto-lhe: “Meu capitão, há algum problema?” Ele respondeu logo: “Oh pá, não sei para que lado hei de seguir. Não tenho bússola! Estamos tramados!” (o termo não foi bem este, foi outro mais militarizado). Eu respondi-lhe de pronto: “Mas eu sei!” – “Sabe, como? Você tem nariz de pombo-correio?”, disse ele. Habituado ao uso da minha inseparável bússola (comprada antes do embarque e que ainda hoje transporto sempre comigo como talismã) nas entradas da mata aquando das caçadas, pois, naquele tipo de vegetação, facilmente se anda às voltas, pensando estar a seguir numa direção certa, principalmente de noite, ao desviar de uma árvore e de outra a seguir, ao entrar na mata saindo da picada, naquela noite, instintivamente vi qual o azimute que seguimos. Disse-lhe, então. “Meu Capitão, tenho aqui no bolso um pombo-correio!”, e mostrei-lhe a bendita pecinha. Mirou-me sorridente e disse: “Porra, pá, você é um gajo mesmo muito organizado. Até nisso!”. Disse-lhe: “reparei que a picada seguia para noroeste. Nós virámos à esquerda, quando entrámos na mata. Partindo do princípio que a picada é a direito, porque não haverá aqui próximo qualquer obstáculo, o rio está longe, que eu vi no mapa que também tenho aqui, é só seguir o sentido inverso (e nós viemos na direção de aproximadamente 270º), e haveremos de encontrá-la algures. Quando isso acontecer, é só virar à esquerda”. Disse-me: “vá à frente, então!” e eu respondi-lhe: “Com certeza, se é essa a sua vontade, mas também posso emprestar-lha e o senhor devolve-mo-la na picada”. – “Também pode ser”, retorquiu. E assim se procedeu.

Minha bússola
Penso que ninguém saberá desta história, salvo se ele a tiver narrado a alguém. Pusemo-nos ao caminho, que a LDM dos Fuzos nos espera, para travessia do Rio Cuito, o mesmo rio da Coutada. Ele nasce no Bié, na Serra de Mozamba, e desagua no Rio Kubango, de que é afluente.


LDM 


Uma viatura de cada vez, mas carregada



                                                                                                 
Carlos Jorge Mota




XXII - O CHEIRO DA MORTE

Aterra o Alouette, transportando os feridos ligeiros, que são prontamente socorridos, mas nada de grave, e também traz no seu bojo o corpo do montijense, que é levado, silenciosa e respeitosamente, para uma tenda, que ficará vazia, e lá depositado no chão, na lona. À noite, entro sozinho no seu aposento provisório. De camuflado, aparentemente incólume, sereno, parece que está a dormir. Reflito sobre este trágico acontecimento e apercebo-me instintivamente como o destino nos é cruel: ofereceu-se voluntariamente para esta tarefa de apoio logístico; dois dias antes estávamos todos a jogar futebol junto à Pista Nova … E a família descansada em casa como irá reagir ao receber esta notícia? E se fosse eu? A roleta pára num ponto indeterminado …
No dia seguinte, logo pela manhã, chega um DO (avião Dornier) da nossa Força Aérea. Traz expressamente um Soldado do PAD (Pelotão de Apoio Direto), habituado à função mórbida de soldador … de urnas. Apercebo-me da sua destreza na tarefa, sinal provável de que pouco descansa. Sou sabedor, nesse momento, e para minha surpresa, que é procedimento normal colocar-se cal dentro da urna metálica para facilitar a decomposição do cadáver. Tem lógica, mas nunca tinha pensado nisso. Acabado o trabalho, a urna é metida dentro dum caixão que possuíamos como dotação e o DO encarrega-se de o levar ao seu novo destino … alterado poucas horas antes.
É preciso reagir ao mal-estar psicológico porque eu estou na Guerra, onde já sabia que se pode morrer, ficar ferido e até estropiado. Mas o choque é profundo. E tenho que preparar a fase final para eu também poder abalar para Serpa Pinto.
Como não sobrevivemos sem comer, e ainda vamos estar mais uns dias, é preciso ir à caça. Os voluntários que sempre se disponibilizaram para esse tipo de patrulhamento, era o termo oficial, agora, com o rebentamento das minas, percebendo que afinal eles andam mesmo por ali, escapuliam-se. Falo com o Capitão Santana e ele diz-me: “Mota, tente conseguir voluntários. Se não os arranjar, selecione o pessoal que entender e arranque! Trate disso e comande você! Eu só tenho cá metade do pessoal, o resto já abalou, e tenho muito que tratar agora na sobreposição!” Apenas dois Soldados se ofereceram, os outros escolhi-os eu, pois teriam que comportar, no mínimo, o equivalente a uma Secção, reforçada.  Arranco com dois Unimogues, ando uns duzentos metros e saio da picada. Meto-me a corta-mato, pois, desse modo, jamais acionarei uma mina anti-carro. Tive necessidade de fazer mais três caçadas, agora acompanhado já dos maçaricos para eles se adestrarem na matéria. Aprenderam rapidamente.
Após regresso duma caçada

Carlos Jorge Mota                             

XXI - NOVA MINA NA PICADA

Já esperando o socorro indispensável, eles, deslocando-se rapidamente, o que demonstra a sua grande capacidade operacional (ou outro grupo articulado?), vêm colocar nova mina anti-carro a uns bons quilómetros da anterior, a montante. A viatura pesada, Berliet, que, por precaução, se deslocava à testa da coluna, seguida dos Unimogues, acionou o dispositivo. O pessoal salta imediatamente para a berma, toma posições de combate no terreno e aguarda a emboscada … que não aconteceu. Fica uma Secção a cuidar da viatura agora inoperacional e avança outra Berliet para a frente para se continuar a tarefa de socorro. Chegados ao local, monta-se a necessária segurança e os mecânicos avaliam a possibilidade de eventual reboque para a Coutada. Concluem que, depois duns arranjos provisórios, mas morosos, com material entretanto já por si transportados, seria possível concretizá-lo. Estes homens faziam, por vezes, autênticos milagres na picada, sem ferramenta adequada resolviam problemas aparentemente insolúveis. O pessoal seguiu o seu destino, juntos, os “nossos” para Serpa Pinto e os maçaricos para o Destacamento do Luengue. A Berliet veio rebocada para o nosso Aquartelamento. Entretanto, a segunda Berliet inoperacional permaneceu no local ainda mais um dia, com a respetiva segurança, até também ser rebocada, depois de adaptações para o efeito.
 
O Condutor, de pé, atrás do homem que segura a G-3. O João Silva, Cmdt do Grupo de Combate, de óculos escuros


Nada similar havia acontecido até aí. Fase evolutiva por parte deles ou meras ações intimidatórias? Seria para aumentar a pressão sobre a Companhia recém-chegada? Provavelmente a última hipótese, porque a função do MPLA naquela área era de mero apoio logístico à SWAPO, portanto não estariam interessados em contacto direto com as NT. Todavia, a tropa agora chegada teria que fazer uma reavaliação da situação e atuar em conformidade, como mandam as regras militares.

Carlos Jorge Mota

XX - MINA ANTI-CARRO NA PICADA

Confirmando o que sempre suspeitávamos, eles controlavam os nossos movimentos. Numa atitude de afirmação destinada a nós, que partíamos, e de meter em respeito os que chegavam, colocaram uma Mina Anti-Carro na picada, mais ou menos ao quilómetro 70. A iniciativa da nossa ação de Simulação de Ataque ao Aquartelamento comprovou-se assim, pois, que tinha sido correta. A Berliet da frente da coluna - pertencente à Companhia de Transportes de Angola, cujo símbolo era um Elefante Branco exibido nas portas, e cujos condutores se tinham oferecido como voluntários para uma sortida àquelas lindas paragens, ouviam eles dizer, e que serviram de apoio no transporte logístico - aciona o dispositivo escondido debaixo da areia. Entre o condutor de momento e o Chefe de Viatura seguia um outro Soldado-Condutor, do Montijo, em descanso, para substituição do anterior quando ele se encontrasse cansado, da dita Companhia, cujo nome jamais esquecerei, mas que não cito aqui em consideração da sua família. Os gases emergentes do acionamento incidiram sobre o tablier e ele foi mortalmente atingido por peças que se soltaram. Outros sofreram ferimentos, alguns evacuados de imediato, via Héli, para Serpa Pinto, pela sua gravidade; outros ainda, com lesões de menor dimensão, regressaram depois à Coutada em meios imediatamente disponibilizados.
Num determinado momento, as nossas Transmissões captam uma chamada na Rede “Índia, Índia”. A Rede silencia-se e o operador que estava transmitindo diz: “Sobe, Índia”. Pelo homem das Transmissões da coluna é dada a informação da ocorrência e feito o pedido de evacuação urgente.
Em Transmissões havia (há ainda?) 4 tipos de grau de prioridade no que se refere à transmissão: Rotina, Urgente, Imediato e Relâmpago, consoante a situação a aplicar. As mensagens eram soletradas letra por letra, num tipo de canto de 5 notas, de modo a haver perceção pelo recetor que alguma eventualmente pudesse não ter sido captada, e depois descriptadas. Mas a cada letra, em linguagem militar, corresponde uma palavra: Alfa, Bravo, Charlie, Delta, Eco, Foxtrot, … Rómio, Uniforme, Índia, Zulu. Rotina, como se depreende, para mensagens rotineiras, tipo reporte de Sitreps; Urgente, prioridade acima da rotina; Relâmpago, que, na Natureza, descreve uma forma de Z (daí o nome Zulu) – e que é usada em casos extremamente urgentíssimos, como, por exemplo, estar a Artilharia a bombardear zonas das NT (Nossas Tropas); sobra a Imediato, a de maior prioridade a seguir a Relâmpago, e que era o grau utilizado nos pedidos de evacuações. Razão do grito de Índia! Índia!
Do Rundu, acionado através da ligação existente no Cuito Cuanavale, arranca um Héli Alouette III dos "nossos primos" para efeito de evacuação dos feridos graves e um outro que transporta o morto e os feridos ligeiros para o nosso Aquartelamento.
Na Coutada, de imediato se organiza uma coluna, já com o pessoal em alerta máximo e com viaturas reforçadas com mais e mais sacos de areia, na cabine e na chapa servindo de chão, pois, obviamente, o IN saberia que o primeiro socorro partiria dali, e poderia haver novas surpresas, inclusivamente uma emboscada, pois eles teriam tempo de escolher o melhor ponto da picada para esse efeito, sabendo, de antemão, o sentido em que a coluna se deslocaria, colocando inclusive minas anti-pessoal nas redondezas do terreno que seria utilizado na inevitável reação das NT. E, efetivamente, aconteceu parte do que se suspeitava …

Berliet que seguiu à cabeça da coluna, tipo rebenta-minas
Carlos Jorge Mota

XIX - RENDIÇÃO, APÓS QUASE UM ANO NOS CUS-DE-JUDAS




Em princípios de agosto de 1970, somos informados que iríamos ser rendidos. Outras paragens, ainda ignoradas, nos eram agora destinadas. Começa-se os preparativos para entrega de todos os materiais, com exceção de viaturas e do armamento, e a passagem do testemunho. A fim de possibilitar uma interligação mais eficaz e um adequado contacto com a nova realidade, nomeadamente um melhor conhecimento das caraterísticas do terreno, potencialidades aproveitáveis, perigos e, principalmente, pontos mais sensíveis, havia sempre um tempo de sobreposição. Chega o primeiro grupo, que percorreu o trajeto que tínhamos utilizado na nossa ida para aquelas paragens. Boas-vindas aos noviços, de olhos perscrutantes, olhar revelador de muita e compreensível intranquilidade face ao início da sua Guerra. Branquinhos, tez ainda não mudada e moldada ao calor tropical, logo, maçariquitos recém-desembarcados, concluímos de imediato. Adestramento acelerado no que ficaria em sua posse, patrulhamentos em conjunto pois a experiência é grande mestra. Assisto a uma interjeição surreal: um Soldado novel avista um seu conterrâneo e dispara: “oh Luís, que estás aqui a fazer?”. O absurdo seria ridículo se o estado de alma fosse normal.
A transferência de Unidades normalmente é feita em duas fases, mas, neste caso, não se trata duma rotação porque a nova Companhia acaba de chegar à RMA. Todavia, a nossa deslocação é para efeito de rotação, portanto, sujeita ao procedimento habitual, isto é, metade de cada vez. Irei na segunda metade.
Avança a nossa primeira, mas com percurso diferente do utilizado na vinda, isto é, seguindo a picada mais a leste, via nosso Destacamento do Luengue - a ser rendido também -, logo, em áreas de maior preponderância de forças Inimigas, segundo informações recolhidas. Segue também um Grupo de GE’s, como reforço. Abraços aos que partem, por uma despedida temporária, até ao reencontro. Para os “nossos”, até Serpa Pinto, onde nos aguardarão; para os novatos, até ao Luengue, pois avança já um Grupo de Combate deles para render o nosso Grupo que lá está e se sobreporá com ele até à chegada da nossa segunda metade àquele Destacamento, Grupo nosso esse que se juntará depois a nós a fim de seguirmos em coluna única, rumo à Capital do Kuando-Kubango. 

 O Glória e os GE's, na primeira metade. O Autor, só para memória futura
  

Metem-se ao caminho, como tantas e inúmeras vezes antes, mas, desta, uma surpresa estaria reservada.


Carlos Jorge Mota

XVIII - NOTAS SOLTAS … NO KUANDO-KUBANGO

O Comandante e … o Patrão
Como disse atrás, o Tenente-Coronel Soares, Comandante do meu Batalhão, acompanhou toda a nossa viagem até à Coutada, ao volante do “seu” jipe, acompanhado do seu condutor privativo. Como era habitual, quando se ia para a mata, ou em trânsito para ela, nada se levava em cima dos ombros, todos possuímos aparentemente o posto de Soldado. Na travessia duma cidade, um civil dirige-se a ele e faz-lhe uma pergunta sobre algo da estrada. Ele respondeu: “não sei! Isso é aqui com o Patrão!, e aponta para o lado. O homem fica perplexo, pois vê um “soldado” ao volante, já com quase 50 anos, meio careca, e o homem ao lado, de 21 anos, é que é o patrão? É que Patrão … é mesmo o nome do rapaz.

2 Dias de Prisão …
Para travessia do Rio Cuito, no Dirico, utilizava-se uma jangada, que só transportava uma viatura de cada vez, e vazia. Demorámos nisso quase dois dias. Como não sou apologista de ordenar algo cuja dificuldade de execução não tenha avaliado, e como era preciso descarregar as viaturas de todo o seu conteúdo (e carregá-las de novo, do outro lado do rio, após a travessia), desde géneros alimentares a cunhetes de munições, passando por todo o restante e muito diverso tipo de material, resolvi ajudar o pessoal e “alombar” também. De repente, aparece-me o Comandante, chama-me ao lado e diz-me, numa voz calma mas firme: “você está aqui para coordenar, não para andar com caixas às costas. Se o volto a ver nesta situação, enfio-lhe com 2 dias de prisão!”. E a punição dum Graduado implicava obrigatoriamente a sua transferência de Unidade. Aconteceu, infelizmente, já quase no fim da Comissão, com um Camarada meu.

Acidente na Jangada
Não presenciei, foi-me narrado, mas que me marcou profundamente: um moço nativo, civil, ficou com a perna entalada entre a jangada do Dirico e a margem. Como o ferimento era aparentemente grave, alguém solicitou, através dos canais próprios, a evacuação do rapaz. Os  “nossos primos” tinham uma base aérea a menos de 10 minutos de voo. Aterrado o Cessna, o piloto indaga o que se passa e verifica, obviamente, que se trata dum negro, e civil. Manda aguardar, fala em afrikaans com o Rundu. Diz, depois, que o avião está avariado e tem que regressar à base. Verdade? Talvez! Mentira? Se sim, seria por ser civil e eles não se sentirem “obrigados” a isso? É que, conhecendo agora os termos do ALCORA, o Acordo era meramente militar … Seria por ser negro? Não sei. Soube depois que foi amputada a perna ao infortunado nativo. Mas foi coisa que me incomodou!

Fogo no Cessna
Carregado o Saco do Correio e algo que havia sempre a remeter para Serpa Pinto, despeço-me do piloto carcamanho e fico a aguardar a descolagem. Ele põe o motor a trabalhar e, de repente, uma labareda na parte inferior do avião, provinda do motor, irrompe. Como se trata de uma aeronave que, pousada, fica com o nariz levantado, ele de nada se apercebe. Atravesso-me à frente do avião, para evitar que ele arranque, esbracejando com vigor e a gritar “Fire! Fire!”. Com o barulho do motor ele nada ouve mas percebe que algo de anormal se passa. Sai apressadamente da cabine, vê o fogo, corre a buscar um extintor e domina-o rapidamente. Deveriam ser restos de combustível que andavam por ali e, com o aquecimento repentino, deflagraram… Ficou pálido, sentou-se no chão uns minutos. Pediu-me para estar atento e voltou para dentro, deixando a porta aberta. Põe o motor a trabalhar, aquece uns minutos e pergunta-me, gesticulando, se noto alguma anormalidade. Faço-lhe sinal com o polegar que parece estar agora tudo bem. Fecha a porta. Acena-me dum modo muito enfático, como que a agradecer, arranca, eleva-se nos céus e toma o rumo definido.

12 Candeias
     








 x 12
Solicitou-se a Serpa Pinto transporte para 12 Candeias. Aterra o Cessna dos “nossos primos”, vai descarregando o conteúdo, sempre com o bendito CORREIO, e diz o piloto: “I have here in the aircraft a small space for twelve oil-lamps, but I must charge somethings yet at my base, in Rundu”  (eu tenho aqui no avião um pequeno espaço para 12 candeias, mas tenho ainda que carregar umas coisas na minha base no Rundu). Fora-lhe transmitido que iria transportar 12 candeias. Nas Forças Armadas, a cada Posto corresponde um número. A Segundo-Sargento era (é ainda?) o número 12. Era o Sargento Candeias, de seu nome, que precisava de ir a Serpa Pinto. Alentejano de gema, de Ponte de Sor, latagão duns quilos bons, amigo do seu amigo, homem muito dinâmico, o que contraria a ideia errada de molenguice que se atribui àquela gente, teria que se reduzir ao espaço de 12 candeias …  Lá teve ele que aguardar mais uns dias.

O Palaio e os seus patos 
Logo à chegada à Coutada do Mucusso, o nosso Comandante de Batalhão, que nos acompanhou às Terras-do-Fim-do-Mundo, resolveu ir à caça e fez-se acompanhar dum pequeno grupo. Encontraram uma peça jeitosa cujas patas o Comandante deduziu logo serem boas para fazer as pernas duma mesa. Dispararam sobre o bicho, mas ele não morreu, apenas ficou ferido e largando um pequeno rasto de sangue na sua fuga. Para facilitar a localização, e pressupondo que ele estaria por perto, o Comandante e outro Camarada seguiram no Unimogue na sua peugada enquanto os restantes desceram da viatura e prosseguiram a busca, mas apeados. O Comandante desorientou-se nos azimutes e seguiu a direção leste enquanto os restantes conseguiram localizar a peça, que entretanto soçobrou. Esperaram, esperaram, mas nenhum sinal dos outros foi recebido. Entretanto escureceu. E agora, que fazer? O Palaio prontificou-se a ficar a tomar conta da peça de caça, mas, por precaução, subiu para uma árvore de porte razoável munido da sua arma enquanto os outros sobrantes, que eram dois, foram fazer pesquisas do terreno na tentativa de encontrarem vestígios de retorno. Atraídos pelo cheiro do sangue, começam a afluir aves de rapina, leões, leopardos e toda a bicharada ávida de repasto. O Palaio lá foi abatendo ou afugentando alguns no sentido de salvaguardar a peça. Mas ... e agora, se também os outros não aparecem? Resolveu então abandonar o local e desprezar o bicharoco, pois não tinha como levá-lo. Descobriu o caminho de retorno sozinho e foi o primeiro a chegar ao Aquartelamento, já noite adentro. Trazia às costas, para seu orgulho, já morto, um "pato" grande, e, cheio de regozijo, dizia: "há ali muitos, muitos, mais!". Só que o "pato" do Palaio não era mais que um abutre ... Os outros militares, que eram quatro, divididos em dois grupos separados, chegaram no dia seguinte, em momentos bem diferentes.

Tiro na mosca
No Destacamento do Luengue, durante uma caçada para abastecimento alimentar, e estando apeado, um Soldado nosso vê de repente vir em sua direção, qual comboio expresso em velocidade acelerada, um rinoceronte, cabeça abaixada com o corno em riste. Levanta a arma, faz pontaria e abre fogo. O bicharoco cai à sua frente, morto. Mais tarde, Caçadores Profissionais disseram que lhe tinha saído a sorte grande. O Rinoceronte, afirmaram, tem a cabeça com uma couraça, tipo blindagem, e há só, nessa zona, uma pequena área, entre os olhos, que é vulnerável. Mais disseram que um bicho destes tem que ser abatido (mas que não o faziam, avisaram logo, talvez lembrando-se que era proibido) com arma de calibre grosso e com bala especial. Na falta dessa bala, deveria cortar-se, em formato de cone, um bocado dessa outra, para que, com o impacto do embate, ela achatasse e alargasse o poder de perfuração. Não me lembro já do que foi feito ao cadáver do bicho, mas deverão ter sido cumpridas todas as normas, até porque o tiro só foi efetuado em legítima defesa. Não sei se esse Soldado tem sorte ao jogo …


O Cavalo do Kalunga
Numa operação feita bastante a norte da nossa área, foi capturado um cavalo, provavelmente abandonado pelo IN em fuga. Dizia-se que um dos Chefes da Guerrilha naquela zona seria o famigerado Kalunga, nome de Guerra de um combatente do MPLA. Hoje sabe-se que Kalunga, de seu nome Jaime Eduardo do Couto Cabral, falecido em 7 de junho de 2012 em Portimão, no Algarve, em Portugal, atuava na segunda e na terceira Região Político-Militar daquele Movimento, respetivamente Cabinda e Moxico, pelo que seria improvável que o cavalo lhe pertencesse. O bicho foi colocado em cima duma Berliet e foi trazido para a Coutada, sem resistência alguma, pois estaria bem domesticado.
Num belo dia em que o Capitão, sendo da Arma de Infantaria, quisesse talvez mudar para Cavalaria, ou para matar saudades de cavalgar, monta no cavalo em pêlo, tal como os índios, e diz-me: - “Mota, venha daí, vamos dar uma volta, cá dentro do arame”.    - “Meu Capitão, nunca andei a cavalo, não sei montar”, digo-lhe eu. - “Oh homem, isto não custa nada, o bicho é manso, venha daí”. E eis-me então armado cavaleiro, agarrado ao tronco do Capitão Santana aí vamos nós, primeiro a passo, logo passado a trote e de imediato passou-se a galope, num pequeno espaço entre as árvores mais frondosas. Só que, de repente, surge a antena horizontal de Transmissões. A pé nem nos aperceberíamos dela, mas a cavalo … O Capitão abaixa o tronco, e contrariamente ao que deveria ter feito, para a frente, fá-lo para o lado esquerdo. Ora como eu ia agarrado a ele, caímos imediatamente os dois no chão arenoso porque o centro de gravidade se alterou. Curioso foi que o cavalo estacou imediatamente, sinal que estava mesmo bem treinado. Rimo-nos da parvoíce que tínhamos cometido, mas ele a dizer que eu me deveria ter inclinado para o outro lado … como se isso fosse possível estando eu agarrado a ele para me segurar... O bicho foi depois evacuado para a sede do Batalhão 2870, como despojo de guerra. Provavelmente terá tido como destino uma unidade equipada com cavalos pois havia patrulhamentos feitos com esses animais, quer na área de Serpa Pinto quer em Silva Porto.

Ajax, com a experiência da Berliet, testa os amortecedores do Cavalo de Kalunga 

Luz misteriosa
Em determinada altura, e por um período de tempo não muito curto, avistávamos ao longe, de noite, do lado da chana, num ponto ligeiramente antes do horizonte, uma luz misteriosa, indiciando a presença de alguém, que, a confirmar-se, só poderia ser IN, pois não havia ali população.
Estando nós, os Graduados, reunidos na Messe, numa bela noite, de luar, alguém disse, não me lembro já quem: “ e se fôssemos lá ver o que é aquilo?”. Vai daí, e duma forma, numa perspetiva eminentemente militar, perfeitamente irrefletida e imponderada (serão, talvez, os termos mais brandos, para não dizer “irresponsável”, por ser muito forte – lembrar que tínhamos todos 22 ou 23 anos),  resolvemos pegar na arma, nas cartucheiras e algumas granadas e, sem qualquer planeamento nem discussão prévia, aí vamos nós, só Graduados, fazer uma surtida àquela zona. Avisámos as sentinelas da nossa saída, pegámos no barco de fibra que nos estava recentemente afeto e, a remos, para sermos silenciosos, lá abalámos. Chegados a um ponto em que o rio descrevia uma curva para o lado oposto do nosso destino, encostámos, em pleno emaranhado de ramificações com pequeninas ilhas em chão raso, canavial alto, no meio de um silêncio muito ruidoso. Levanta-se então a óbvia questão, nem lembrada antes: quem fica a tomar conta do barco? Tirámos às sortes e calhou-me precisamente a mim. Lá abalaram os outros e fico eu sozinho, em terra firme, de arma em punho pronta a abrir fogo, receoso que me aparecesse de repente qualquer animal de grande porte, como leão, leopardo, chita, hiena, jiboia ou mesmo jacaré. Optei por não ficar dentro do barco porque ele oscilava permanentemente e dificultaria a rotação constante do meu corpo, o que fazia a todo o momento, para evitar uma surpresa pelas costas. Foram cerca de duas horas, tempo dessa incursão, em que, porventura, terão sido os momentos da minha vida em que o sentimento de vencer o medo foi mais escrutinado.
Nada conseguiram identificar, mas … deixou de se avistar essa luz a partir dessa noite. Coincidência? Talvez. Mas … desconfio sempre destas simultaneidades. 

Natal de 1969
Noite de Natal. Regressa, precisamente ao anoitecer, vindo duma missão, um Grupo de Combate comandado pelo Temudo. De repente, um Soldado, em pânico, diz que perdeu a Arma. Durante o trajeto, talvez com receio de adormecer porque o ronronar do motor do Unimogue é convidativo, pousou a G3 no chão da viatura, junto a si. E agora? É de noite, voltar para trás nada resultará pois é escuro como breu. Acertou-se, de imediato, que, logo pela manhãzinha, se faria o percurso inverso na tentativa de encontrar a malvada escapulida. Ofereci-me como voluntário para ajudar. Dia de Natal, aí vamos nós quais cães farejadores. Percorremos durante umas 7 horas toda a picada, perscrutando a sua orla. E … encontrámo-la mesmo, deitadinha no chão, à espera de mão caridosa ou de uma outra menos misericordiosa, o que seria extremamente grave. Foi precisamente numa zona onde habitavam avestruzes de grande envergadura (devem continuar ainda lá, mas já os descendentes). À nossa passagem desatam numa correria, qual avião rolando na pista para descolagem, que chegam a atingir cerca de 80 Kms por hora. Espetáculo lindo, maravilhoso de se ver. Foi só nessa zona, já muito próximo de Bambangando, que vi este tipo de animal. Regressados ao Aquartelamento, e para alívio geral, com a recuperação concretizada. Tempo ainda para se saborear algo de diferente. Para não nos esquecermos que era Natal …
 Espingarda Automática G-3 
Carlos Jorge Mota