INSÍGNIA E LEMA

INSÍGNIA E LEMA
CONQUISTANDO OS CORAÇÕES SE VENCE A LUTA

sábado, 5 de abril de 2014

XLIII - EPÍLOGO


Poema elaborado em 2010 e por mim lido no 17º Convívio em Macedo de Cavaleiros


Carlos Jorge Mota

XLII - RUMO A UM CAIS EM LISBOA

Zarpámos do Funchal cerca de meia-noite. Passámos, portanto, a parte diurna desse dia na Ilha pois havíamos atracado logo de manhãzinha. Vejo o navio a começar a navegar com a proa apontada para um pouco antes do bico do monte frente à cidade. Fico assustado. Será que vamos bater ali? Questiono um tripulante perante o meu alarme. Ele, tranquilamente, respondeu-me: “É que o navio está apontado para ali mas, com a corrente, ele vai navegando de lado e iremos passar bastante para lá do morro”. Fiquei a saber naquela altura que, tal como nos aviões, que sofrem a influência dos ventos (mas aí eu tinha conhecimento), há também, na navegação marítima, uma diferença entre Rota e Rumo. Entrámos no alto-mar, azimute de Lisboa na bússola, com viagem prevista para cerca de 36 horas. Durmo tranquilo, ainda teríamos mais duas noites e um dia de navegação. Como de manhã estava um tempo ótimo, aproveito para me refastelar um pouco e gozar os últimos momentos do Vera Cruz.

A última noite foi passada em grande desassossego uma vez que, pela manhã desse dia 1 de julho de 1971, atingiríamos o Tejo. Mas, para nosso espanto, o navio parou no meio duma neblina cerradíssima, que nada víamos num raio de 20 metros. Soa o seu apito estridente e responde um outro mais fraquinho: era o da Lancha dos Pilotos. Estávamos junto ao Farol do Bugio, viemos depois a perceber quando o sol clareou, dissipado o nevoeiro. Sobe para bordo o Piloto do Porto da Barra de Lisboa … e o navio começa a subir o Tejo, devagarinho. Passa sob a Ponte, então chamada de Salazar, agora de 25 de Abril, e começa-se a vislumbrar uma multidão no Cais de Alcântara e não no da Rocha de Conde de Óbidos, donde tínhamos partido em 1969, a acenar, com lenços, chapéus e tudo que dava para abanar. Acostámos, em manobra lenta e vagarosa, e alguma multidão entra em transe. Gritos de alegria vindos de fora, acenos feitos de dentro. Minutos especiais em que disciplina rígida tem que imperar, sob pena de perca do controlo da situação. A compreensível ânsia é grande mas tem haver rigor no critério de saída. Chega a minha vez. Desço o portaló e encontro logo de imediato, de Serviço de Prevenção de Enfermagem ao navio, o que viria a ser o meu cunhado António, mais tarde mobilizado para Moçambique. É o meu primeiro abraço. Rapidamente descubro os meus familiares e a minha namorada. Ficará perene na minha memória esse esperado momento do reencontro ansiado.
“Vamos embora, tenho ali o carro!”, diz o meu cunhado Amorim (já falecido). “Não posso. Temos que ir enquadrar o pessoal até ao R.I. 2, em Abrantes (nossa Unidade Mobilizadora) para fazer o chamado espólio do fardamento, tirar uma Radiografia Pulmonar e receber a Licença Registada por 30 dias e ainda aguardar pela bagagem de porão!”. Assim se procedeu, mas eles, os meus familiares, levaram o carro para Abrantes para me aguardar. Chegámos à Unidade, transportados em Camiões Militares desde a Estação de Abrantes, onde findou a sua marcha o Comboio Especial. Portanto, missão cumprida. Nós, Milicianos, não fizemos espólio. O fardamento era nosso, pago por nós, com dinheiro abonado pelo Exército mas descontado posteriormente no soldo.



           

É-me feita uma Radiografia Pulmonar e é-me entregue a Licença Registada por 30 dias, período durante o qual nos encontrávamos ainda no Ativo. Findo esse prazo, entraríamos na chamada Disponibilidade. Concluo logo que será melhor voltar ao RI 2 mais tarde para levantar a bagagem de porão. Entro no carro e, após umas horas de compreensível conversa emocionada, chego, finalmente, à minha rica cidade do Porto.
Adeus às Armas! Fim da Guerra! Mas será que foi mesmo o fim da Guerra? NÃO, NÃO FOI! Constatamos todos nós, Combatentes, isso, hoje. Ela somente hibernou … as nossas cabeças apenas entraram num período de nojo … Sim, porque a Guerra é mesmo um nojo!…

Carlos Jorge Mota

sexta-feira, 4 de abril de 2014

XLI - MUDANÇA DE RUMO … A POUCAS HORAS DE LISBOA

Zarpámos em plena noite, sem antes nos despedirmos, com uma olhadela curiosa, ainda de dia, ao navio Império, que tinha também acabado de levar tropas e que aguardava a saída do Vera Cruz a fim de acostar para início das operações de carregamento.

 Navio Império

As luzes do Cais de Luanda, já bem longe
Embora cansados, conservámo-nos na amurada até deixarmos de ver totalmente Angola. E, com a linha do horizonte a evidenciar a curvatura do planeta, já em pleno alto-mar, era impossível dormir, com toda aquela azáfama. Bagagem de mão bem arrumada no Camarote, o Bar do navio era o poiso de toda a “maralha”, alguns começando a sua dose diária de bebedeira, reforçada ao momento por razões óbvias, ou por contentamento indisfarçável ou por confusão mental súbita fruto do balanceamento do que deixam e da nova e inesperada vida que vão encontrar … lá longe.


Beliche no Camarote
                    
               

Rasto da velocidade de 21 nós
Na segunda noite seguinte, 23, seria a famosa Noite de São João da minha cidade do Porto, que ainda não saborearia.
O Vera Cruz, tal como o Império, o Uíge, o Niassa, o Índia e o Pátria, penso que não me falha mais nenhum outro, eram navios que estavam fretados para transporte de tropas, portanto, tinham os seus porões adaptados com beliches feitos em madeira para acomodação das Praças. Tive que me deslocar lá uma vez, por razões de Serviço à Companhia, e verifiquei as condições paupérrimas em que o pessoal viajava, acrescida do facto perturbador da alta pressão atmosférica a que os corpos se sujeitavam, porquanto se encontravam abaixo da linha-de-água.
Como é normal nas viagens marítimas, são dadas instruções aos passageiros sobre o procedimento a adotar em caso de emergência, com a indicação da baleeira que lhes está destinada, e há sempre uma ou mais ocasiões, a decidir aleatoriamente pelo Comandante de Bandeira (neste caso, porque transportava tropas) ou pelo Comandante do Navio, para um exercício súbito e inesperado. As Praças, ao apito do navio para esse efeito, tinham mais dificuldade em chegar prontamente ao convés, não só pelo local onde se encontravam mas também pela sua maior quantidade. Havia que procurar controlar toda esta dificultosa situação, por razões do foro militar e de obrigação naval.
Uma bela tarde, em pleno Golfo da Guiné, vemos um navio mercante em rota de colisão com o nosso. Nada percebíamos de Leis Marítimas, mas fomos informados que aquele barco teria que dar passagem ao Vera Cruz e ser ele a desviar a sua rota, o que não fez. Não se conseguia vislumbrar vivalma e estivemos muito perto dele. Parece que viria em Piloto Automático, foi-me dito, depois, por um Oficial de Bordo. Óbvio que o piloto do nosso barco é que teve de guinar para a direita e fazer um círculo completo, retomando depois o rumo.
Passámos ao largo de São Tomé e Príncipe, da Guiné, depois Cabo Verde e seguíamos o nosso destino para Lisboa, quando nos chega a informação que aportaríamos primeiro ao Funchal. E Porquê? Exatamente porque tínhamos partido atrasados de Luanda decorrente das 12 horas gastas pelo Vera Cruz na sua paragem aquando da ida. É que o tempo é controlado ao máximo para efeito de articulação com outros fatores. Levávamos a bordo duas Companhias de Caçadores Independentes cuja Unidade Mobilizadora era um Quartel de Ponta Delgada. Estava previsto o seu desembarque em Lisboa e simultâneo transbordo para outro navio cujo percurso é a triangulação dos Arquipélagos da Madeira e dos Açores. A fim de se evitar o atraso de saída desse barco o Vera Cruz foi descarregar essas Companhias ao Funchal que ficaram a aguardar a chegada do tal outro para posterior embarque para o seu efetivo destino. Esta alteração proporcionou-nos a oportunidade de conhecer a Ilha da Madeira, pois tivemos autorização de saída. Em grupos, alugámos um carro e percorremos aquela maravilhosa Pérola do Atlântico, como a cantava o grande Max.
Funchal
Estava lá estacionado um navio de cruzeiros cujos turistas passeavam pela cidade. Vendo-nos fardados de camuflado, e tanta tropa junta, um casal francês, já dos seus cinquenta anos, perguntou-me o que se passava. Disse-lhes, em francês, que nos dirigíamos a Lisboa provindos de Angola. Ele respondeu logo: “Ah, Angola (acentuando o último a). Exactement comme l’Algerie!”, talvez lembrando-se da Guerra da Argélia. Teria sido ele também Combatente?

Carlos Jorge Mota

XL - EMBARQUE À VISTA

Chegada ao Porto de Luanda do Navio Vera Cruz, com tropas frescas a bordo para rendição de outras, prevista para 20 de junho, de manhã. Uns dias antes dessa data, começa a nossa entrega do Armamento, Munições, das Viaturas, do material de Transmissões, enfim de tudo que nos fora confiado para o desempenho da missão de 24 meses, mais o “mata-bicho”. E as deslocações para as Chefias dos respetivos Serviços, na baixa de Luanda, se sucedem, no seguimento das diligências por mim iniciadas e de cuja incumbência fora encarregado, não obstante permanecer na Província, por mais um bom número de dias razoável, uma Comissão Liquidatária, como era normal, na esperança que tudo estivesse em ordem e nenhuma anormalidade fosse detetada e impeditiva de quitação. E a azáfama do encaixotamento logo se inicia. Só se ouve martelar, por todo o lado do Campo Militar do Grafanil onde nos encontrávamos, pregando caixotes e mais caixotes, para embarque no porão. Eu trouxe três, com o meu nome e posto e a designação da Companhia, tudo bem visível do exterior, pintado a tinta branca, para levantamento em Abrantes. Uma correria em busca de tábuas, improvisando-se tudo que servia para esse desiderato. Entretanto, somos sabedores que o navio se atrasou 12 horas. Chegaria, portanto, só à noite, o que, em termos práticos para nós, representaria um dia, pois nessa noite de 21 ele estaria ocupado nas operações de descarga, quer do pessoal embarcado quer do conteúdo dos seus porões quer ainda em reabastecimento. Vim a saber depois a razão desse atraso. Ao largo do Golfo da Guiné, durante a exibição dum filme, um Soldado, pendurado nos cabos do navio (em linguagem marítima cordas são cabos), desequilibrou-se e caiu à água. O Vera Cruz parou os seus motores e permaneceu na zona cerca de meio dia na esperança de recuperar o rapaz, vivo ou morto, mas, e infelizmente, sem resultados positivos. O navio retoma a marcha e chega atrasado a Luanda. As implicações do retardamento irão surgir no regresso, connosco a bordo.

 
Vera Cruz. Nunca imaginaria que cerca de 6 meses antes ele esteve prestes a ir ao fundo com 3 800 homens a bordo, vindo de Moçambique, ao largo de East London (RAS)


Preparativos para o embarque

Da minha Companhia, o Fernando Temudo resolveu ficar a residir em Angola, bem como mais, pelo menos, dois Soldados. Das outras Companhias houve igualmente pessoal que ficou por lá, razão por que todos entraram de licença registada à data da saída do navio. Não quiseram, todavia, deixar de nos vir dar um abraço. Sabe-se lá se nos voltaremos a encontrar um dia?!  
E chega a ordem de Embarque
Como alguns Camaradas tinham lá família e outros tinham já feito namoritos, com promessa de voltar, houve choros e ranger de dentes, fora do navio, que aumentaram de intensidade, até com algum histerismo, quando o pessoal passou para bordo, atingindo o apogeu com o apito estridente do barco, em jeito de despedida. Cerca das 10 horas da noite do dia 21 de junho de 1971 o Vera Cruz zarpa de Luanda, rumo a Lisboa. Curioso foi o súbito e estranho sentimento que se apoderou de mim (provavelmente generalizado a todos): olhar para aquela terra onde passei 26 meses, onde senti algumas alegrias, muita saudade e tristezas, por vezes fome e sede, momentos de desespero … e começar a emergir uma nostalgia inesperada, num misto e contraditório pensamento – colocar-me mentalmente no destino mas observando embevecido esta linda terra que vou agora deixar …

Carlos Jorge Mota

XXXIX - O ROSTO DO COLONIALISMO

Ao segundo dia em Luanda, já pela noite, chegam todas as Companhias do Batalhão, em coluna, depois da viagem de Comboio entre o Luso e Nova Lisboa, em que transportaram também as viaturas. O local de acantonamento foi no Campo do Grafanil em cujas instalações se colocavam as tropas em trânsito, as vindas da Metrópole e com destino ao Mato e vice-versa.
Sabíamos já qual a data da chegada do Vera Cruz, navio que nos transportaria para Lisboa, mas ela só teria lugar daí a uns dias. Entretanto, como Tropa não pode estar parada, é dos livros, cria ócio e dá mau exemplo aos outros militares, foram-nos atribuídas missões a empreender na própria cidade de Luanda. Eram de vário tipo, por rotação de Companhias: serviço à Rede, em que tínhamos já estado à chegada à R.M.A e durante cerca de 3 meses, e patrulhamento aos Musseques, isto é, ação de policiamento.

          
 Musseque em Luanda
Atendendo a que eu estava interessado em conhecer essa tarefa de polícia, e já não teria outra oportunidade pela proximidade da data do embarque, perguntei ao Fernando Temudo se ele via algum inconveniente em eu o acompanhar numa sua saída, com ele a comandar, obviamente. Ele acedeu e eu então requisitei uma Pistola-Metralhadora FBP (Fábrica de Braço de Prata) para me incorporar no grupo, uma vez que só as Praças transportavam G-3. Ele levou uma Pistola Walther. Embrenhados nos Musseques, a missão consistia em pedir identificação, duma forma mais ou menos aleatória, aos transeuntes. Uns paravam, mostravam a documentação e eram mandados em paz; outros, indocumentados, subiam para um Unimogue, vazio para o efeito - só com o condutor -, para entrega posterior à PSP; e outros, logo que nos avistavam, desatavam numa correria louca, em fuga. O Temudo chegou a mandar uns tiros para o ar, mas sem resultado. 
Uma vez a viatura cheia, deslocámo-nos à Esquadra da PSP, julgo que a 1ª, e entregámos os cidadãos para os devidos efeitos: identificação, morada, profissão e averiguações de atividade eventualmente ilícita, pensava eu. A Esquadra era uma casa tipo habitação, com Portão de Jardim, um corredor e depois, percorridos uns 15 metros, a Porta de Entrada. Mas … eis que, logo à passagem do Portão, onde estava uma Sentinela, verifico que, à medida que os cidadãos desciam e penetravam nesse corredor, sem nada lhes ser perguntado, começavam a levar pontapés, estalos, socos. Eles procuravam proteger-se das agressões, mas infrutiferamente. Lá dentro, na sala, depois de passada a Porta, era o chicote que entrava em ação. Pasmado com aquilo, digo ao Temudo: “eh pá, isto é assim? Eles (os da Polícia) já te assinaram a Guia de Entrega? Os homens estão ainda sob a tua custódia! Que merda é esta?”. O Temudo responde-me: “oh pá, temos o barco à nossa espera, deixa lá isso, não levantes problemas!”. Nesse momento senti uma revolta interior, vi ali o Rosto do Colonialismo. Suponho que todos os Guardas seriam gente do recrutamento local, portanto, com anos na Polícia de lá. Um metropolitano jamais faria aquilo. Percebi, então, a razão por que muitos dos cidadãos negros, avistando-nos, fugiam a sete pés. Já teriam passado por aquela situação … Tentei perceber, pelo tempo de permanência na Esquadra, o que lhes faziam depois. Após algumas perguntas, mandavam-nos embora … com porrada já carregada no lombo. Procedimento desumano e que contrariava toda a filosofia reinante de interligação racial apregoada. Fariam o mesmo se os homens fossem brancos? Não fariam, com toda a certeza!.. Naquele momento percebi que todo o meu esforço ao longo daqueles 26 meses não tinha razão de ser. Eu tinha sido enganado.
Como eu transportava uma FBP, arma perigosa se mal manuseada, pela eventual mudança brusca, aleatória, da posição da culatra que ela própria faz, um Guarda alertou-me para a posição da minha, dizendo-me: “cuidado, o senhor já viu como traz a arma?”. Disse-lhe: “Já, fique tranquilo, que eu sei o que estou a fazer!”.-“Como posso ficar descansado? Ela pode disparar sozinha a todo o momento!”, disse ele. Respondi-lhe: “você acha que eu iria agora correr riscos?”… e tiro o carregador, vazio … e mostro-lho. “O cheio, está aqui, no bolso” e bato no bolso lateral da calça da farda do camuflado. “Ah, já estava a ver, estava a ficar com medo”, retorquiu ele, aliviado.

Carlos Jorge Mota