INSÍGNIA E LEMA

INSÍGNIA E LEMA
CONQUISTANDO OS CORAÇÕES SE VENCE A LUTA

domingo, 18 de outubro de 2015

ESCOLTA PARA ENTREGA DE MUNIÇÕES E … OPERAÇÃO NO DESTINO

Ainda com apenas cerca de quinze dias de Angola, a minha Secção foi encarregada de escoltar transporte de munições a uma Unidade estacionada em Maquela do Zombo, localidade situada bem no Norte, entre os Distritos do Zaire e do Uíge, muito próximo da fronteira do então Zaire (país), zona de fortíssima actividade inimiga.
Seguimos em dois Unimogues, cujos condutores eram o Freitas e o Carvalho, e colocámo-nos num dispositivo típico de escolta, neste caso a uma viatura pesada civil requisitada pelo Exército e que transportava munições.
Foi-me transmitido que, algures, num ponto do qual já não me lembro o nome, seríamos reforçados por elementos de uma Companhia em quadrícula naquela área, só que ninguém apareceu e também não recebi, na qualidade de Comandante da Escolta, qualquer informação dessa ausência.
Chegados ao destino, o Oficial-de-Dia à Unidade destinatária dessas munições perguntou-me onde se encontrava o resto do pessoal. -“Que resto?”, respondi. –“Somos só nós!”. Ele, estupefacto, vociferou contra a irresponsabilidade de quem nos incumbiu daquela tarefa com tão poucos efectivos. Regressámos à base em Luanda, eu muito apreensivo fiquei com aquele desabafo, mas, felizmente, nenhum incidente ocorreu no retorno.
A nossa Companhia (2506) entretanto, ao fim de 3 meses, marchou para as Terras-do-Fim-do-Mundo, em reforço do Batalhão de Cavalaria 2870, cuja sede estava em Serpa Pinto, mas a minha Secção, bem como a do Veríssimo, que era de Armas Pesadas, ficámos no Grafanil.
Um belo dia, e estava o Veríssimo de Serviço-de-Dia ao Batalhão, recebo ordens para comandar duas Secções, a minha e a do Veríssimo, e irmos fazer uma escolta a uma viatura militar que iria entregar munições a uma Unidade estacionada no Zenza do Itombe, no início da Mata dos Dembos, que tinha o epíteto de Companhia “O Bando”.
A viagem correu muito bem, chegámos no outro dia ao amanhecer ao nosso destino e, para meu espanto e dos dez que me acompanhavam, à entrada do aquartelamento estava colocado algo que sugeria ser uma caveira e com o seguinte dizer:  “NÃO HÁ PERIGO DE CHEIRAR MAL PORQUE MUDAMO-LA TODOS OS DIAS”. Percebi logo que aqueles “velhinhos” (designação em gíria castrense para quem tivesse já ultrapassado metade da Comissão -  e estes estavam próximo do fim) deveriam estar quase todos bem avariados da cachimónia, face ao tempo decorrido e ao perigo iminente no quotidiano militar.
Dirigi-me ao Capitão, Comandante daquela Companhia, e dei ordem ao pessoal sob o meu comando para se manter nas viaturas. Entretanto, os Camaradas de lá, ao estilo de boas-vindas aos novatos, pois percebia-se pela cor ainda muito viva do camuflado que vestíamos, diziam: “maçaricos de merda, daqui não saís vivos” e outros impropérios a que o pessoal se ia habituando e que já era um ritual.
O Capitão perguntou-me quem eu era, pois nunca tinha visto a minha cara, disse-lhe que  trazia munições e pedi-lhe instruções para me indicar a quem as entregar.
Levantou-se, olhou para mim - e nunca esquecerei aquele olhar revelador de mente insana - e disse-me:  - “Entregue ao FDP do Oficial-de-Dia, que deve ainda estar bêbedo, pois aqui, desde o Capitão ao Raso, são todos bêbedos”. Não sei se a frase fez parte do ritual de boas-vindas ou se todo aquele pessoal estava mesmo transtornado da “mona”. No início admiti ainda que era brincadeira, mas, ao outro dia, quando fomos tomar o Pequeno-Almoço, estava um Barril de Vinho … em vez da Panela do Café. NEM NO APOCALIPSE NOW! Minha mente colapsou por instantes …
Saí, fui ter com o Oficial-de-Dia para lhe entregar as munições, e a primeira pergunta dele foi se tinha sido o “bêbedo do Capitão” que me tinha mandado dirigir-me a ele. Respondi-lhe afirmativamente e aproveitei para solicitar se nos abonavam alimentação quente e onde nos poderíamos deitar. Ficámos ao ar-livre e fomos dos últimos a comer. Mantivemo-nos sempre todos juntos e fizemos sentinelas entre nós, pois eu percebi logo que algo ali não batia bem.
No dia seguinte fui chamado ao Capitão que me disse que eu e o meu pessoal nos iríamos integrar numa Operação, reforçando um Pelotão, nas margens do Rio Zenza.
Eu retorqui que só tinha recebido instruções para entregar as munições e que nunca me foi referido o efectuar qualquer Operação.  –“Faça o que lhe digo, vá”, proferiu. Ignorava à data se ele teria ou não competência para dar aquela ordem, mas … cumpri, como mandam as Regras Militares, e lá fomos para a dita.
Lembro-me que, a dado momento, um dos Furriéis desse Pelotão reparou que já tínhamos passado pelo mesmo local duas vezes. Chamou o Guia e disse-lhe do que se tinha apercebido. Foi a última vez que vi o Guia. Presumo o destino que lhe terá sido reservado. Ainda andámos mais um dia na mata. Este Furriel suicidou-se mais tarde com um tiro na cabeça.
Nessa noite, no acampamento, ouviu-se uma rajada de metralhadora. A sentinela disse não ter conhecido quem dele se aproximava: era o Capitão. Viemos, finalmente, embora daquele Inferno e regressámos ao Grafanil, nossa base em Luanda.

Esta insólita situação julgo ser única e sui generis na Guerra do Ultramar pois nunca ouvi relato semelhante de algum Camarada, nem à época nem posteriormente.
Soube mais tarde que "O Bando", na viagem de regresso à então Metrópole, cometeu intoleráveis desmandos no navio e que estiveram para ser desembarcados na Guiné. Desconheço as consequências de tal comportamento mas, com toda a certeza, deverá ter sido feito um inquérito rigoroso e alguns terão ido mesmo parar à Prisão, atendendo a que a Disciplina Militar obrigatoriamente é, e terá que ser, implacável com estas atitudes.
Anos mais tarde, encontrei um Soldado daquela Companhia que me contou a história da viagem de regresso, das cenas lamentáveis ocorridas no navio, do suicídio do tal Furriel e que tentava esquecer o que se tinha passado durante aqueles anos de juventude em Angola. Não o voltei a ver de novo, mas sei que se chamava Manuel e que era de Baião.

Sérgio Lopes

quinta-feira, 8 de outubro de 2015

IDA A MAVINGA - VIAGEM ESPECIAL PARA BUSCAR GRUPOS ESPECIAIS (GE's)

Missão: sair numa Berliet com dois homens da Coutada do Mucusso com destino a Mavinga e voltar no mesmo dia, com o objectivo de trazer para a Coutada do Mucusso um grupo de GE’s(Grupos Especiais), acompanhados das suas mulheres. Acidente a bordo no regresso de Mavinga/ Apontamentos da viagem. Militares designados para a missão pelo Comandante, Capitão, Reis Santana: Furriel Fernando Temudo e Condutor-Auto de Berliet António Costa/ "Ajax". Equipamento: duas espingardas-metralhadoras G3; uma pistola Walther; um mapa; uma bússola; quatro cantis para água; duas mantas; rações de combate. Hora de início do serviço: saída 06:00 horas; tempo previsto para a realização do serviço:10/11:00 horas; tempo real realizado: 11:00 horas. Angola/nas "Terras do Fim do Mundo"/fins do ano de 1969.
A história desta missão que  vou contar pormenorizadamente já se encontra narrada no livro do Mota "FARDA ou FARDO?" em "Um tiro ou ...  dois tiros?  Eis a questão" na página 68 da 1ª Edição.
Na fotografia constante da página 70, do referido livro, pode-se ver 18 homens dos GE’s (Grupos Especiais). Mas eram 19, pois um GE faleceu, por motivo de doença, no dia seguinte à chegada da viagem. Muitos desses homens traziam consigo uma mulher, havendo alguns que se faziam acompanhar de duas, como o Chefe. Seriam umas 15 mulheres, no total 34 pessoas a bordo, sem contar comigo e com o "Ajax". Levavam, cada um, uma "trouxa", contendo roupas, mantas, panelas, tachos, alguidares, jarros para a água, algumas enxadas e catanas, etc. Sem esquecer que cada homem dispunha de uma espingarda Mauser, algumas baionetas, cartucheiras, cantis, etc. Assim, o pessoal vinha amontoado, viajando agachado com as nádegas assentes no piso da viatura e os joelhos juntos ao peito (parecendo de cócoras), ou meio deitados, sofrendo directamente no corpo os efeitos da forte trepidação transmitida pelo piso de ferro da viatura. Iam muito atentos aos arbustos que se debruçam sobre a viatura e que a condução do "Ajax"  não conseguia evitar. Estes, entrando por cima da Berliet, provocavam uma onda de gritos  à sua passagem e, como vergastadas, atingiam e feriam os corpos.   Agarravam-se uns aos outros  para não serem atirados para fora da Berliet, por causa da picada se apresentar em péssimo estado, com um sem-fim de pronunciados altos e baixos, sendo necessário andar o mais rápido possível, não só para tentar complicar a pontaria das armas do inimigo, que nos podia surpreender a qualquer momento, neste percurso reconhecidamente perigoso, mas, também, para evitar chegar à Coutada do Mucusso de noite, atendendo a que naquelas paragens, a partir das 17:15 horas, a noite desce abruptamente, acompanhada de um frio implacável. A picada, com percursos destruídos ou escondidos nas imensas chanas muito alagadas, obrigava, por vezes, a percorrer novos caminhos para a ela se retornar. Por isso, no percurso de ida, tive de recorrer algumas vezes às indicações da bússola para não perdermos o sentido da direcção. Também, este caminho estreito através do mato, apresentava-se demasiado apertado para a passagem da Berliet, devido ao crescimento dos arbustos, que iam fustigando a viatura no seu andamento em ambos os lados laterais. De facto, na grande maioria do percurso, não  passavam lá viaturas há  muito tempo e, sem povoações por perto, mais parecia um caminho no deserto. Havia que enfrentar  uma viagem com trajecto muito longo, de muitas horas, de ida e volta no mesmo dia, com eventuais inesperadas dificuldades, que não permitia, pois, erros de orientação, acrescendo o facto de ser efectuada debaixo de um sol abrasador,  a "peito descoberto", obrigando todos a suportar temperaturas, por vezes, superiores a 50 graus.
Levávamos já horas de viagem naquela terra deserta e, de Mavinga, nada à vista. Começava a ficar preocupado, mais eis que o "Ajax", de repente, exclamou: “meu Furriel, olhe lá ao fundo à esquerda ... aposto em como são  cubatas!”. O meu coração deu um salto, a ansiedade aumentava. Apontou o carro para lá e a meia-dúzia de pontos negros que inicialmente se viam iam crescendo e transformavam-se em cubatas ...   já se viam mulheres a tratar das hortas. É verdade que denotavam receio e surpresa, mas não fugiam. O "Ajax" encostou a viatura a uma jovem que, mostrando os dentes todos, oferecia simpatia e cordialidade. E eu fiz a pergunta fatal: “que terra é esta?”. Naqueles três segundos que demoraram a resposta, o coração explodia no peito, até que ela veio: "É... Maaaviiingaaa". “E o quartel onde fica?”  "Vais... sempre para... ali... aparecem casas de branco... o quartel é casa grande...  olha ... vens de que terra?”... “desse lado ... nunca vem ninguém !". O "Ajax", já com a viatura a começar a andar, disse: “vimos do Céu...  e toma lá esta caixa (embalagem de ração de combate ), que tem coisas boas para tu comeres!”. 
Estava feliz ... encontrámos Mavinga no meio do deserto … conseguimos ! ... conseguimos! ... nós somos fantásticos” !
No quartel, o Oficial-de-Dia, a quem me apresentei, ofereceu-nos refeição na messe e pediu-me para chamar os outros homens que vinham connosco para comerem. Ficou incrédulo quando lhe disse que éramos só os dois, que não  havia mais ninguém. Trataram-nos bem (um abraço para esse valoroso pessoal do Quartel de Mavinga). Não havia muito tempo, ou melhor, não havia nenhum, e o "Ajax" não o perdia, já se levantara da mesa para atestar a viatura e fazer outras verificações. Entretanto, fiquei a assinar umas guias e a receber documentação dos GE’s para entregar na Companhia, ao Primeiro Vilares. Foi-me apresentado o chefe dos GE's e ele pediu-me para quando precisasse de transmitir algo a um GE o fizesse por seu intermédio, uma vez que era o chefe. Concordei e disse-lhe que tinha recebido essas instruções do nosso Comandante, Capitão Santana. 
Logo que me despachei da papelada e me dirigi à Berliet verifiquei que o "Ajax" já tinha tratado de tudo. Quando olhei para a viatura e vi quase 40 pessoas lá em cima, com todo o tipo de tralhas à volta, falei para mim: -“que horror!”
Deixámos o quartel. Olhei para as horas e disse para o "Ajax": estamos adiantados no horário, está a correr bem. Para "cá", viéramos  na maior velocidade possível, mas para "lá", com tanta gente a bordo, a viagem ia demorar mais tempo, pois teríamos de reduzir a velocidade. Mas o futuro é uma "caixinha de surpresas" e estas nem sempre são  boas. 
Aproximadamente no meio da viagem de regresso e a pedido do chefe dos GE’s, tínhamos parado para caçar a fim de arranjar comida  para aquela gente toda. É verdade que havia uma Ração de Combate para cada pessoa. Mas só se a fome fosse muita é que as comiam. O Chefe dos GE’s indicou-me três homens para participarem na caçada. Usando as espingardas Mauser, abateram, com rapidez, três "cabras do mato" que, em seguida, se foram cozinhar. Com a viatura parada, todos estavam alegres e as mulheres de pé cantavam e dançavam, batendo palmas de elogio aos três militares GE’s que participaram na caçada. Era altura de descerem todos do carro. Cada um sabia o que fazer para preparar as cabras e arranjar uma "mesa" no chão, com mantas e panos de diversas cores. Em breve, as cabras, em espetos improvisados, rolavam nas brasas. Só faltava o vinho e esse não iria aparecer. Eu e o Ajax ficámos na Berliet, a comer alguma "coisa" da nossa Ração  de Combate. O apetite não era grande, pois comemos bem na messe do quartel, em Mavinga. Aliviando os nervos, acompanhámos o banquete improvisado de cima da Berliet. O tempo passava depressa. Chegara a hora de partir. A meu pedido, o Chefe dos GE’s deu ordens aos seus para subirem para a Berliet. Depois das mulheres, começavam agora os homens. Estabeleceu-se alguma confusão ocasionada pela falta de espaço para tantas pessoas, que levavam o seu tempo a arranjar lugar para si e seus haveres. O motor da Berliet já "cantava". Um dos três GE’s escolhidos pelo seu Chefe para participarem na caçada foi dos últimos do grupo a regressar à viatura. Com o entusiasmo da caçada, esqueceu-se de retirar a munição da câmara e, ao subir, a "guarda" do gatilho (anel de metal arredondado que resguarda o gatilho da Mauser - espingarda de repetição), entrou num espeto metálico do "resguardo" lateral da Berliet (como um anel entra num dedo). Sem nisso ter reparado, o GE, ao balançar o corpo para subir para a viatura, fez força na arma provocando que o espeto apertasse o gatilho e .... "buuuummmm".... Foi mesmo um azar! 
Nesse momento eu estava sentado no lugar ao lado do condutor e olhava para trás para perceber quando estavam todos acomodados, enquanto o "Ajax", com as mãos no volante, se preparava para arrancar. Reparei no homem a subir para a viatura e vi a espingarda a ficar presa ... mas não houve espaço de tempo para intervir: o clarão imenso a sair do cano, acompanhado de forte estampido, anunciavam a partida do projéctil - a espingarda tinha disparado. Quando aconteceu, a boca do cano da arma perfilava-se na nossa direcção, a aproximadamente 1,40 metros do meu corpo e uns  80 centímetros da cabeça do "Ajax", que,  logo a seguir ao disparo, por motivo do forte estouro, agarrou a cabeça com as mãos nos ouvidos, o que me levou a admitir que pudesse ter sido atingido, tendo logo ido, num salto, ver se havia sangue no seu corpo. Nos primeiros momentos após o disparo o "Ajax" pensou que estávamos a ser atacados pelo inimigo. Imediatamente se ouve muitos gritos, sobretudo das mulheres, enfim, uma balbúrdia do "caraças". O "Ajax", assim que se recompôs, imediatamente arrancou e não mais parámos. Mas … duas  jovens mulheres não paravam de gritar, de chorar, ouvindo-se queixumes de dor, o que levava a antever que tinham sido atingidas. Mas, logo as duas? Andando de joelhos pelo piso da Berliet, por entre uns e outros, aproximei-me da que se encontrava mais perto. Estava meia deitada, encostada à sua "trouxa", com as mãos vermelhas de sangue a apertar a saia junto da perna direita. À sua volta, uma mancha de sangue, lentamente, espalhava-se no chão e,  em seu redor, todos se iam afastando, dando espaço ao sangue para se alargar. Com a minha cara muito perto da dela, olhei os seus olhos que, fitando o infinito, revelavam desespero. Então, afastei-lhe as mãos e levantei a saia ...  logo, um esguicho de sangue irrompeu para o ar, como se fosse um repuxo, intermitente, que acompanhava as contracções do coração; e, a meio, entre o joelho e o quadril, na parte da frente da perna, via-se um buraco parecendo uma cratera profunda, de uns 7 a 8 centímetros de diâmetro, onde a bala saíra. De lado, na parte exterior da perna, notava-se um pequeno orifício, do qual escorria um fio fino de sangue, onde a bala entrara. Não  havia tempo a perder. Arranquei uma tira de pano e, com um galho de arbusto à mão, fiz-lhe um torniquete, na perna, entre o ferimento e perto da linha do sexo. O "Ajax ", que por vezes olhava para trás para ir vendo o que se passava, carregava no acelerador. Tive de lhe gritar, porque não ouvia bem, para que reduzisse a velocidade, pois já havia mulheres atrapalhadas com muitas dificuldades para se conseguirem agarrar ao que podiam para não serem atiradas pelo ar para a picada. Estávamos debaixo de um sol abrasador. A hemorragia estancava quase completamente conforme rodava o galho que apertava a faixa de pano na perna, Apesar das dificuldades do momento, admirava-me como aquela tira de pano e o galho do tamanho de uma esferográfica, usados conjuntamente, funcionavam na perfeição. Mas, havia um "calcanhar de Aquiles": não  podia largar o galho, pois, se o fizesse, a tira de pano desenrolava-se e o sangue corria por ali fora … e lá ia repetindo os procedimentos: desapertando um pouco para permitir que a circulação se fizesse para a perna não morrer, talvez de 15 em 15 minutos, ou de 10 em 10, ou talvez no tempo em que fumava um cigarro. Mas … durante quantos segundos deveria deixar o sangue correr, para apertar novamente?  Essa decisão constituía um martírio para mim. E como arranjava coragem para "lutar contra ela", que ao ver o seu sangue a correr e a perder-se, ficava muito aflita? Era como sentir a sua vida a esvair-se. Por meros instantes ausentei-me dali ... imaginava-me  com outros camaradas de armas a jogar às cartas ... a beber umas cervejas. a rir ... Mas a realidade era outra ... agora, ali, a pesar as minhas decisões em balança de pesos duvidosos, que podiam resultar na vida ou na morte daquela jovem mulher ou na preservação ou perda da perna. Mas estabeleceu-se, entre nós, sem trocarmos uma palavra, uma eficiente colaboração, como que dividindo as responsabilidades a meias: quando sentia a perna muito dormente ou com dores muito fortes, os seus gemidos aumentavam e fazia-me gestos aflitos com as mãos; logo, aliviava o torniquete ... o sangue começava a correr e a circulação da perna a fazer-se; agora, era comigo a decisão de quando devia apertar novamente o galho para estancar o sangue. Já não gritava e os seus queixumes baixos quase não se ouviam, confundidos com o som forte do motor. Continuava  a ouvir gemer a também jovem mulher que seguia meia encostada à protecção traseira da viatura. Todos os outros vinham em silêncio, a não ser quando os arbustos da picada teimavam em invadir a Berliet. Com o passar do tempo, a hemorragia resultava mais controlada pois nos períodos em que aliviava o torniquete o sangue que se perdia vinha sendo cada vez menos. Também já não precisava de ser fortemente apertado como ao princípio. Havia só que repetir os procedimentos até chegarmos à Coutada do Mucusso … e esperar que ela aguentasse até lá ... ainda tínhamos  três horas de viagem pela frente. Conforme o tempo passava o sangue derramado ia ganhando um odor ácido que me provocava vómitos, que reprimia a custo. Mas o que se passava com a outra mulher? Também estaria ferida? Tinha de ir junto dela  para averiguar. Mas como? Não  podia deixar de agarrar o galho. Olhei à volta e pedi em voz alta que um deles, homem ou mulher, me ajudasse a segurar aquele pau milagroso. Imóveis, olhavam-me em silêncio e assim continuaram. Então, sem outra solução, agarrei na mão da jovem ferida e pedi-lhe para agarrar no galho e não o deixar rodar. Ela percebeu e ganhou forças e coragem para o fazer. Comecei a ir até junto da outra, novamente de gatas, para evitar ser atirado para a picada, abrindo caminho a custo por entre os homens, mulheres e tralhas. Quando já me encontrava junto  dela ... não  queria acreditar!?: as suas mãos tinham sangue e, olhando para mim, num choro de dor, levantou a saia ensanguentada e pude ver uma perna muito inchada e na parte de trás da perna, entre o joelho e a coxa, viam-se três orifícios: um pequeno próximo da dobra do joelho e dois maiores, lado a lado, juntos  à nádega. Não se viam lesões, mas seria certo que interiormente houvesse destruições, uma vez que a bala percorreu, por dentro, toda aquela extensão da zona da perna. Dos três orifícios escorriam fios de sangue. Improvisei uma ligadura com uns trapos que encontrei à mão. Não achava explicação para o facto de serem três orifícios de projéctil conquanto deviam ser só dois (entrada e saída da bala). Mais tarde, o "Ajax"  e eu entendemos o que se tinha passado em relação ao trajecto do projéctil dentro da viatura: as duas mulheres foram atingidas com a mesma bala, apesar de estarem longe uma da outra (uma quase à frente da viatura e a outra na rectaguarda). De admirar haver pessoas entre elas … que não foram atingidas. O percurso do projéctil foi este: ao sair da espingarda Mauser seguiu na direcção do volante da viatura, passou junto à cabeça do "Ajax", rente ao seu ouvido esquerdo, fez ricochete no painel dos instrumentos e  inverteu o seu sentido, passando entre o "Ajax"  e mim (que estava sentado no banco ao lado dele), prosseguindo, na Berliet, a uma altura de uns 50 centímetros do piso, agora na direcção do pessoal que, amontoado, se encontravam uns sentados no piso, com as pernas dobradas e os joelhos junto ao peito, e outros sentados, mas meio deitados, encostados às trouxas pessoais; entrou e saiu da perna da mulher em que fiz o torniquete, passou por aquela gente toda e já junto à traseira da viatura entrou e saiu da perna da segunda mulher em quem fiz a ligadura, fez ricochete no resguardo de aço do fundo da viatura (o que se abre e fecha quando se usam mercadorias) e tornou a entrar na mesma perna, onde ficou alojada. Por isso, os três orifícios faziam crer ter havido dois disparos, conquanto só acontecera um. Mas esta realidade, respeitante à bala ter ficado alojada na perna, só a descobriram os médicos operadores do Hospital de Serpa Pinto. Até sabermos esta realidade, o "Ajax " e eu encarávamos o terceiro orifício como um mistério.
 
O Ajax “apertava” a velocidade o mais que podia pois o tempo começava a escassear. Os feridos obrigavam a que chegássemos depressa à Coutada do Mucusso, onde tínhamos médico e enfermeiros e também para fugir à noite que se aproximava. A condução do "Ajax" era a mais veloz possível, mas condicionada a evitar qualquer acidente com a própria viatura e o atirar com o pessoal da Berliet  abaixo. Em todas as condições desfavoráveis desta viagem, o "Ajax", mostrou estar preparado para enfrentar  as diferentes dificuldades que iam aparecendo. Excelente na sua especialidade de condutor-auto, revelou-se um homem rijo, responsável, destemido, determinado e com um encorajador sentido de humor. Foi o companheiro ideal para esta missão poder terminar com êxito. Finalmente, o nosso aquartelamento da Coutada do Mucusso estava à vista. Pedi ao "Ajax"  que levasse a Berliet até à improvisada mas competente Enfermaria, chefiada pelo Furriel  Mineiro, que estava dotada de um Médico. Ao chegar, gritei : "o médico ...  o médico ...  trazemos feridos!". O pessoal cercou a viatura, todos olhavam com curiosidade aquelas trinta e tal pessoas que começavam a descer da Berliet com as suas trouxas e que iam passar a viver connosco. O pessoal de enfermagem rapidamente levou as mulheres feridas para a Enfermaria. Os GE’s e mulheres olhavam com curiosidade para tudo à sua volta. Procurei o Capitão, que estava perto, e contei-lhe o resumo da viagem. Como seu costume, evitava ouvir narrações alargadas, pelo que dei conta dos acontecimentos de maneira resumida, que o não demoraram mais de cinco minutos. Seguidamente, pediu-me para levar junto dele o Chefe dos GE´s, com o qual ficou a falar. A noite estava a cair e o frio a chegar. Na Coutada do Mucusso as amplitudes térmicas eram grandes. Juntamente  com o "Ajax" fomos à barraca/bar beber uma cerveja. Aliás, já íamos na segunda quando o Médico me mandou chamar. Não aceitava a minha descrição do acidente: tinham de ter acontecido dois disparos e não um, como eu dizia. E a contenda instalou-se e não acabava: eu garantia um, o Médico dois. Nenhum de nós cedia e o pessoal juntava-se à nossa volta. O Capitão assistia, de braços cruzados, a esta controvérsia, sem nada dizer. Até que o "Ajax" fez sinal ao Médico, levantando um dedo e dizendo: “um tiro”. Então o Médico retirou-se, mal humorado e não convencido. No dia seguinte as mulheres feridas foram evacuadas para Serpa Pinto, em virtude de a nossa Enfermaria não dispor dos meios necessários para tratar estes ferimentos que obrigavam a operações médicas e transfusões de sangue. Só depois soubemos a confirmação da minha afirmação: os ferimentos das duas mulheres foram provocados pelo mesmo projéctil, confirmando-se, pois, que só tinha acontecido um disparo. Não mais soubemos destas mulheres, até que …
Estávamos em 1970. No ano seguinte terminou a minha prestação de Serviço Militar. Passei à disponibilidade em Luanda, onde fiquei a trabalhar e casei. Em 1974, num passeio com a Mãe dos meus filhos, pelo sul de Angola, num "carocha", passámos por Serpa Pinto, com destino a Sá da Bandeira, onde estudava a minha cunhada. Para mim, regressar a Serpa Pinto era muito especial. Pensava: se pudesse telefonar para o pessoal da Companhia dizia : "vocês não vão acreditar ...  eu estou em Serpa Pinto ... outra vez, nas Terras-do-Fim-do-Mundo ... acreditem!". E vocês agora, leitores, ... acreditam?  Em breve vou mostrar fotografias para vocês as verem. Serpa Pinto estava diferente. Provavelmente, por acção do Major Branco Ló, que agora era o “Comandante  Supremo" de todo o Kuando Kubango, pois era o Governador. As ruas estavam todas alcatroadas. Os carros já não levantavam pó à sua passagem. Havia canteiros com flores espalhados pela cidade, com "Bosquímanos"  a tratar deles a tempo inteiro. Um cinema enorme estava construído e nós fomos ver um filme. De repente, quando passeávamos numa larga rua, parei estupefacto ... pois no passeio do outro lado da rua ia aquela jovem mulher a quem  fiz o garrote, acompanhada de uma outra. Andava devagar, coxeava acentuadamente e precisava do apoio da mão para andar. Continuava uma mulher bonita. Olhou para mim, reconheceu-me, parou uns instantes. A sua cara não me mostrou sentimentos e vi um tímido aceno com a mão, a que correspondi. Continuou no seu lento caminhar até desaparecer na esquina da rua. Ainda hoje me pergunto: por que não atravessei eu a rua e fui falar com ela?


É necessário realçar que toda esta acção, aliás como as demais que envolviam viaturas, só foi e era possível porque os Mecânicos encarregados de zelar pela preparação e manutenção das Berliets e Unimogues eram competentes, zelosos e altamente responsáveis nas suas tarefas, e tinham plena consciência de que o êxito das operações poderia também depender da eficácia do seu trabalho, aliando ainda o alto espírito de grupo que a camaradagem militar impõe dum modo absolutamente natural.

Nota: o Ajax teve conhecimento prévio do conteúdo desta narrativa com a qual concordou em absoluto.

Mavinga
Quartel em Mavinga
Os 18 GE's vindos de Mavinga (um faleceu no dia seguinte, de doença). À frente o único branco, Carlos Jorge Mota. 

Fernando Temudo

sexta-feira, 18 de setembro de 2015

ALMOÇO-CONVÍVIO NO BARREIRO

Almoço-Convívio no Clube dos Fuzileiros, no Barreiro, em 15 de Setembro último, de alguns Camaradas do Batalhão de Caçadores 2872. Da CCS (Companhia de Comando e Serviços): Arvelos, Medroa e Neves; da Companhia de Caçadores 2505: Fernando Santos; e da 2506: Fernando Temudo, Boavista, Manuel Freitas, Carvalho, Marques, Aleixo e Carlos Jorge Mota. O terreno encontrava-se já todo previamente desminado, não houve emboscadas - os Fuzos montaram a devida segurança -, e, se tiros houve, foram todos certeiros, pois nada sobrou nos pratos.Trotil, perdão, tintol, foi muito usado, mas sem barulho, tudo feito suavemente, até porque nesta Coluna encontrava-se presente uma senhora ...












Carlos Jorge Mota

terça-feira, 8 de setembro de 2015

ZENZA DO ITOMBE - 2ª OPERAÇÃO (ENTRADA PELO SUL): NA GUERRA O INIMIGO É UM SER HUMANO COMO EU

Encrustada na parte sudoeste dos Dembos, onde a Floresta é muito densa e bastante húmida, a zona do Zenza do Itombe era também um santuário da Guerrilha de elementos da FNLA e do MPLA, que se guerreavam entre si, mas que consideravam seu principal Inimigo o Exército Português.
Após uma primeira Operação onde a Companhia 2506, a minha Companhia, também se incorporou com entrada pelo norte da Mata - já relatada neste Blogue com a designação de 1ª Operação  -,  juntamente com outras Unidades dispersas por aéreas mais alargadas, e na sequência de outras Operações já ocorridas no antecedente, à nova Operação Militar foi chamado o nosso Batalhão, sendo atribuída à minha Companhia a nomadização numa vasta área, desta vez com entrada pelo lado sul da densa mata.

Já desde a Coutada de Mucusso, quando, principalmente de noite, se ouvia um tiro isolado, começou a instalar-se no pessoal a ideia que o Palaio via turras em todo o lado, e, se tiro noturno soasse, tinha sido, com toda a certeza, o Palaio, nos seus desmandos visionários. O Palaio não dormia em serviço e tinha revelado já grande sentido de orientação, pois conseguiu acertar o azimute para o Aquartelamento, em digressão sob o luar, quando outros, também perdidos, só chegaram ao outro dia e com sol já bem alto.

Saídos do Grafanil e entrados já na mata densa, bivacámos em local previamente determinado, junto à margem do Rio Zenza. Juntamente connosco, mas chegada depois, instalou-se uma Bataria de Artilharia, com várias Peças de Fogo, que, de manhãzinha, e em momento rigorosamente aprazado, começou a bombardear áreas a norte. Mas, como a missão da nossa Companhia era fazer uma nomadização, tentando empurrar os turras para zonas onde se haviam já instalado, emboscadas, outras unidades militares, no sentido de os capturar ou neutralizar, a nossa saída do improvisado aquartelamento, para dar início à nossa tarefa de alguns dias, forçosamente teve que ocorrer muitíssimo cedo, ainda o sol não raiava.



Ao terceiro dia, numa progressão em “bicha de pirilau”, ouve-se um tiro: foi o Palaio - pensamento instintivo generalizado deverá ter ocorrido na mente de todos.  
Sendo eu o cerra-fila, a dado momento diz-me, numa voz baixa mas firme, o Camarada que segue à minha frente: -“Palaio, está ali um gajo pendurado numa árvore”. –“Onde?”, retorqui eu, no mesmo tom –“Ali, pá, naquela árvore”, e aponta. Talvez, por se ver descoberto, o guerrilheiro, posto-avançado do seu grupo e cuja missão era de vigia, dispara a sua arma, com dois cartuchos, na nossa direcção, uma Caçadeira cujos estragos, em distância curta, são muitíssimo poderosos, não só pela dispersão da carga, que abre em feixe e atinge mais homens, como pela potência do impacto num único alvo. Só que, como o Palaio nunca dormiu em serviço, foi também rápido e, conservando eu a arma permanentemente em posição de fogo, foi só direcionar instintivamente a minha G-3, apertar o gatilho num único tiro e … o homem cai da árvore, seriamente ferido, largando a Caçadeira. Logrou-se, pois, a sua eventual, mas quase certa, pretensão de disparar sobre os últimos homens da Coluna, para depois fugir de imediato. A Coluna estancou imediatamente e, na salvaguarda de emboscada reactiva por parte deles, posiciona-se subitamente na adequada formação de combate. Momentos expectantes, mas rapidamente se concluiu que, pelo menos aparentemente, mais nenhum guerrilheiro se encontraria activo nas redondezas próximas ou disponível para combater. Levanto-me e constato que estou ligeiramente ferido com estilhaços nas pernas, sem gravidade, e o Camarada da frente com leves estilhaços no peito, nada de grave também. Verificou-se que o guerrilheiro se encontra ferido no abdómen com alguma gravidade, mas não em situação de emergência. Prontamente socorrido pelo Enfermeiro da Coluna, fica, passados uns bons minutos, em condições físicas de andar pelo seu pé, embora dum modo dificultoso. Recusou-se a falar fosse o que fosse, demostrou não ter qualquer medo e olhava-nos com algum desdém, revelando grande coragem militar. Como entretanto escureceu totalmente e a Operação tinha que continuar ele foi instado a progredir connosco, sob vigilância apertada, ficando o pessoal sob o comando do Furriel Adário responsável por essa tarefa. Como por vezes abrandasse a marcha (e seria difícil avaliar se o fazia propositadamente e sem razão aceitável ou não), para não atrasar a progressão, era-lhe exibida uma Faca de Mato, ferramenta que ele, como militar, compreendia perfeitamente ser necessário utilizar se se tornasse um obstáculo à manutenção da cadência de progressão exigida. Chegada a hora de pernoitar, e após se montar a indispensável segurança nas condições concretas da Operação, torna-se exigível a especial guarda deste prisioneiro. Essa missão foi atribuída ao pessoal do Furriel Temudo. Este, com receio de que, pelo cansaço, os seus homens mais próximos ao prisioneiro pudessem adormecer, a G-3 de cada um deles foi colocada em local mais afastado pois o prisioneiro, eventualmente desperto, poderia, num acto de suicídio, arrancar uma arma das mãos dum militar nosso e fazer estragos, antes de ser abatido. Entretanto, e no intuito de salvar a vida deste homem, porque, mesmo Inimigo, era um ser humano, acrescido o facto de poder ser útil em eventuais informações que resolvesse revelar, pelas nossas Transmissões foi accionada a necessária evacuação por helicóptero. Manhã cedo, e munido o piloto das respectivas coordenadas, o Alouette III paira sobre as nossas cabeças, em mata cerrada. Improvisa-se um ponto de aterragem. Uma pequena ilhota, junto a um rio, para a qual foi preciso atravessar através de canoa improvisada, foi o local escolhido. O héli descola rumo ao Hospital Militar em Luanda e a Operação prossegue por mais um dia. Terminada esta e regressados ao Campo Militar do Grafanil, pessoal houve, nomeadamente Graduados, que resolveu ir ao Hospital averiguar o estado de saúde do prisioneiro. E eis que brota espontaneamente o que existe de mais nobre num coração humano: um prisioneiro inimigo a ser visitado pelos seus captores. Formou-se, desde aquele momento, uma relação especial, quiçá de alguma amizade, entre os elementos presentes. Foi notória a evolução de confiança que o guerrilheiro passou a depositar nas nossas Forças Armadas, com contagiante disponibilidade de colaboração, talvez por ter sentido que a sua vida foi poupada e até depois salva por aqueles sobre os quais abriu fogo.



A Guerra tem desta coisas, aparentemente absurdas, mas só quem nela participa as consegue entender no seu pleno. Felizmente o homem sobreviveu e, já completamente recuperado, passou a ser mais um cidadão perfeitamente integrado na Sociedade de então.
CONQUISTANDO OS CORAÇÕES SE VENCE A LUTA, era e Lema do nosso Batalhão. Deu-se, pois, cumprimento ao seu desígnio.


Armando Mendes Palaio (Narrativa)
Carlos Jorge Mota (Redacção)
Setembro 2015

quarta-feira, 2 de setembro de 2015

ZENZA DO ITOMBE - 1ª OPERAÇÃO (ENTRADA PELO NORTE) - Narração 3ª

(Continuação)

Hoje, 11 de Agosto de 2015, estou sentado numa mesa do Centro Comercial Spacio, nos Olivais, em Lisboa. Desfruto momentos de felicidade na companhia dos meus Netos. A Inês, de sete anos, e o Miguel, de 13. Ambos envolvidos no jogo que passa no tablet ignoram a minha companhia. Momentos antes consegui tirar fotografias, desafiando a paciência deles por terem interrompido o jogo. Tirei bastantes, como se fossem as últimas. Há dois meses, passei uma semana no Hospital. Dessa já me safei. Agora, aguardando o resultado de meia dúzia de exames médicos, vou tentando arranjar concentração para conseguir recuar no tempo perto de cinquenta anos, para acabar de escrever esta terceira parte da "Operação no Zenza". Tenho setenta anos. Neste período de tempo, o Mundo mudou muito. Mudou demasiado! Olho para a pequena máquina fotográfica compacta que tenho à frente. Quando damos conta, estão duzentas ou mais fotos e inúmeros vídeos à nossa disposição. Naquele tempo, comprar um rolo de vinte e quatro fotos, mandar revelar e obter fotografias, ficava caro. Comprar um rolo de trinta e seis slides era despesa que abalava o vencimento dos graduados que seriam os únicos a poderem efectuar tais gastos. Sem esquecer o preço elevado de uma boa máquina fotográfica, o grande sonho que bem poucos poderiam tornar realidade. Quem não queria voltar a Portugal com uma Canon ou Yashica?  E, também, com um bom e moderno relógio que, para ser comprado, deitava abaixo um vencimento mensal? Hoje, há relógios por todo o lado: nos tabletes, telemóveis, nas  réguas e calculadoras da escola, nos brinquedos  e até em ofertas conjuntamente na compra de outros artigos. É vulgar uma senhora dispor de dez relógios de pulso de variados tamanhos e desenhos, que escolhe para uso diário a condizer com as suas indumentárias. Relógios digitais que funcionam com exactidão e estão ao alcance de todos. Eu também não fugia ao desejo de comprar um bom relógio. Andava com um "Aureos" desde os treze anos. Era hábito, quando já éramos homenzinhos, alguém nos oferecer um relógio. No meu caso foi o meu irmão mais velho treze anos que me deu o seu, quando comprou um novo para ele. Uma semana antes do início desta "Operação no Zenza", em Luanda, ao ver uma montra, não resisti àquele relógio marca Seiko. Com bracelete metálica, automático (a corda dava-se com o movimento do pulso) e de ponteiros luminosos. Era o relógio que eu desejava e queria trazer para Portugal. Ainda hoje se fabrica no Japão este modelo clássico da Seiko e encontra-se à venda numa relojaria da Baixa de Lisboa, pelo preço de cento e oitenta euros. Mas, por razões que o destino traçou, não ficaria muito tempo com ele.
Esta " Operação no Zenza " obrigou todos os militares envolvidos directamente a dormirem sete noites no "mato". Na terceira, como nas anteriores, depois de deitados no chão, tirei o relógio do pulso que ficou por debaixo do saco-mochila que servia de almofada improvisada. O motivo de tirar o relógio é porque este tinha de ficar "escondido" devido ao mostrador e ponteiros serem luminosos. Naquelas noites escuras como breu, o relógio podia tornar-se num indicativo para o inimigo, caso viéssemos a ser seguidos. Como de costume, ainda de madrugada, já estávamos a pé para quando os primeiros raios de sol despontassem pudéssemos abandonar rapidamente o local da pernoita. Com a pressa e o ter que cumprir determinados procedimentos relacionados com a minha Secção, não  me lembrei do relógio. Não mais de cinco minutos após o início da marcha da coluna, dei por falta dele. Então, alcancei o Capitão e pedi-lhe para parar a Coluna, enquanto, a correr, eu iria buscar o relógio. Disse-me que não parava a coluna e que não me autorizava a ir buscar o relógio. Bem perto estava o Furriel Glória que ouviu a conversa. Fiquei parado e o Glória também como que a fazer-me companhia, enquanto iam passando por nós, em linha, os restantes homens da Coluna. "Agarrei " dois da minha Secção, o Galhanas e o Siquenique. Pedi-lhes para irem comigo encontrar o relógio. Responderam-me que estavam prontos para me acompanhar até ao local. No entanto, o Galhanas foi dizendo: "a gente vai lá consigo ... mas o meu Furriel ... veja os riscos ... relógios há muitos ... e o Capitão pode dar pela sua falta". O Glória reforçou: "sabes que voltar atrás é contra as regras ... além disso, tu, mesmo que lá vás, não consegues encontrar o relógio. O chão está todo pisado com os pés do pessoal a passarem por cima ... estás maluco... esquece a porra do relógio e vamos sair daqui que já perdemos o contacto com a Coluna”. Há cerca de três meses, o Glória, que vive no Algarve, ainda se lembra do "relógio perdido" e, em conversa telefónica, falou desse episódio ao Mota. 
"Avô! ... Avô!... Estás distraído?..são horas de almoçarmos", disse o Miguel, enquanto se levantava e fechava o tablet . - "Eu quero um hamburguer", disse a Inês. Na mesa ficava uma garrafinha de água, quase cheia, desprezada, que em breve iria para o lixo. Como me lembrava da importância que podia representar aquela água, agora sem valor especial. Vi homens desesperados com sede e capazes de lutar pela posse daquela pouca água. Chegou a noite. Foi um dia bem passado. Estou em casa, no silêncio. Tenho por companhia um copo de whisky. Chegou o momento de viajar no tempo. Estou mais uma vez na Guerra. Custa-me sempre iniciar esta viagem, mas, depois de lá estar, não quero de lá sair. Estamos, novamente, nas matas do Zenza.
Agora, na "frente", onde "o coração bate mais forte", vamos a caminho da picada onde estariam os "nossos" condutores-auto, para nos transportar para o aquartelamento no Grafanil. O pessoal estava "estafado" e alguns com dificuldades nos pés. O  incansável Enfermeiro Soares, acompanhado do seu saco de campanha que, ao invés da bolsa de Pandora (*), logo que o abria, aparecia, em primeiro lugar, a "esperança",   saindo, em seguida, todos os componentes mágicos que faziam milagres nas suas mãos hábeis e instruídas. Por cima do Soares, pairando como nuvem permanente, podia ver-se, no aquartelamento, o responsável pela Enfermaria, o nosso companheiro Furriel-Enfermeiro Mineiro, a quem muitos deviam tanto. Agora, aproveitando uma breve paragem do pessoal para descanso,  distribuía comprimidos a todos, para serem metidos nos cantis a fim de desinfectar a água.A mim também  me deu dois comprimidos de quinino para o paludismo, que me andava a rondar. Era preciso andar a corta-mato as cinco a seis horas que faltavam, em descampado, debaixo de um sol abrasador, que haviam de parecer um eternidade. Dos homens da minha Secção, os dois competentes Primeiros-Cabos, nasceram na região Centro e Norte. Os outros homens, todos  Alentejanos. Estes, habituados a andarem nos campos, possuíam grande resistência e espírito de sacrifício e um experimentado sentido de orientação. Rudes, duros, leais, um ou outro mais indisciplinado, amantes da pinga. Companheiros dos momentos adversos, não conheciam a palavra recuar.

As obrigações  individuais dos homens da minha Secção foram estabelecidas com naturalidade. A já muita experiência acumulada nas mais diversas intervenções a que fomos chamados facilitava o trabalho em equipa. De facto, tratava-se mesmo de um trabalho em equipa. Competia-me a organização do grupo, a indicação dos objectivos a concretizar e  a distribuição de tarefas tendo em atenção as características e conhecimentos pessoais de cada um. Assim, para fazer face às exigências do momento, cabia-me indicar a direcção a seguir, mediante a leitura da bússola, tendo presente o azimute indicado pelo Capitão; o Primeiro Cabo Couto controlava no seu relógio o tempo de andamento, paragem, descanso e reinício; o Siquenique, de estatura média, regulava a "passada" de forma a proporcionar um andamento o mais constante possível, no sentido de permitir comodidade aos homens que se deslocavam em fila. Se não se ligar a este  pormenor sem importância aparente e, por exemplo, o homem da frente dobrar o passo numa descida pronunciada e longa (embalar), levando os outros que seguem a fazer o mesmo, acontece que, numa coluna de setenta homens, os  últimos obrigam-se a dar corridas para se manterem à distância certa entre eles, originando que o equipamento pessoal de cada um, de muitos quilos, se movimente, magoando, sobretudo, as costas; os outros seguem com atenção redobrada ao que se passa em volta, tendo sempre presente que o Inimigo nos pode surpreender a qualquer momento. Há consciência no grupo que, por irmos na "frente" da coluna militar, cada homem tem responsabilidades acrescidas, pois o nosso Capitão e todos que nos seguem confiam no nosso desempenho. 

Primeira hora:
Vamos avançando. Na nossa frente o intenso e constante barulho da floresta/selva, onde se destaca o chilrear dos pássaros, que vai cessando conforme vamos andando. A progressão a corta-mato em floresta, quase sempre aberta, não apresenta obstáculos importantes, no entanto, a vegetação rasteira é alta e densa, dificultando o movimento dos pés. Apenas alguns desvios são feitos quando se nos deparam núcleos de floresta compacta ou, noutras vezes,  para permitir melhor piso aos homens integrados na coluna, obrigando estas manobras, logo que terminadas, às correções da direcção que  estávamos a seguir (correcção de deriva) a fim de retomar a linha de rumo (azimute) inicial. E sempre se irão usar estes procedimentos de navegação até se alcançar a picada. 

Segunda hora:
Lá íamos prosseguindo a nossa caminhada iniciada desde os primeiros raios do Sol e, pelas 11 horas, passámos para a frente da Coluna, com os nossos dois cantis devidamente abastecidos logo de manhã bem cedo, num braço de rio. Não nos voltaríamos a abastecer até chegarmos às viaturas. Parámos os habituais dez minutos para descanso, conseguindo uma meia sombra debaixo de árvores com sol quase a pique. Foi quando ouvimos uma voz familiar vinda de entre os altos  arbustos: " Bom dia Temudo... tens horas certas?" seguiu-se uma gargalhada infernal e o silêncio. Sem dúvida, aquela voz era a do Glória que veio gozar comigo, lembrando-me que tinha perdido o relógio. Continuávamos a andar e íamos falando para ajudar a passar o tempo. O Galhanas, que por hábito seguia atrás de mim, lançou esta frase para o ar : "Essa coisa da bússola faz-me confusão. Ela é que manda nisto tudo". O Siquenique adiantou: "E o ponteiro mexe sozinho... e, pelo que se vê, aponta sempre para o mesmo lado ... mesmo que a gente se volte ao contrário com ela. Não percebo onde vai arranjar força. Olhem  ... os ponteiros de um relógio mexem mas temos de dar corda". O Feiteirona deu a explicação: " Aquilo não é um ponteiro, é uma agulha... e vai buscar à natureza a força para poder andar à roda... é como o íman ... e a agulha vira-se para o Norte". O Siquenique continuou: "Seja isso ... mas há outra  coisa que aqui o Furriel tem de explicar à gente: quando há pouco tempo a gente vinha na Berliet lá das terras de baixo... vossemecê, que ia sentado ao lado do condutor, quando olhava para a bússola para fazer as suas contas, levantava-se sempre e depois tornava-se a sentar ... fiquei a achar isso esquisito ". A resposta do Arvanas não se fez esperar : " Então... mas é fácil de saber ... na tropa tudo tem posto... menos nós, que somos soldados ... a bússola deve ter, para aí, o posto de Tenente... e o Furriel, quando tem de falar com ela, tem de se levantar por respeito". No meio de risos generalizados, o Couto veio dar o seu esclarecimento: "Tu estás a gozar porque não sabes a razão! Vocês não estudaram estas coisas. O Furriel levanta-se para a bússola ganhar distância da carroçaria da Berliet, que é de ferro. Se ele fizer as medições sentado, a agulha fica baralhada com a carroçaria de ferro, que também atrai a agulha ... e vai indicar o Norte para outro lado qualquer ... e lá se vai o pessoal perder e sem chegar ao sítio que quer ir ". O Arvanas esperou uns segundos e disse : " Bom, se o Furriel ficou calado é porque estás a falar certo ... realmente tens estudos... por isso és Cabo". O Couto não ficou satisfeito e respondeu: " Não sou Cabo... sou Primeiro-Cabo ". O Siquenique perguntou: "O que é que ele quer dizer" ?  O Galhanas explicou: "O Couto tem razão ... há Segundos-Cabos ... conheço um na Guarda Republicana". 

Terceira hora:
O calor aumenta, mas temos de continuar a aguentar. Começo a olhar com ansiedade para a água que me  resta. É mais que certo que  não vai chegar até à picada. Como estará a água dos outros? Os homens mentem quando lhes perguntam sobre a água que ainda possuem. Naquele momento é a riqueza que cada um tem e não há dinheiro que a compre. Se perguntarmos, a resposta é sempre a mesma: só tenho um bocadinho. Na minha Secção, os homens Alentejanos, habituados a andar desde pequenos nos campos e a lidar com as  temperaturas altas de Verão, sabem beber a água. Pequenos goles, sabiamente intervalados, permitem-lhes uma gestão perfeita da água disponível que, no entanto, também se vai acabando. Eu sentia-me bem ... até me sentir mal (passe o sentido hilariante da frase). Repentinamente, sem qualquer aviso, começo a ver o caminho desfocado, sem cores e a cabeça muito tonta. Sinto-me agarrado no braço pelo forte Galhanas que vinha atrás de mim e que deu o alarme: "Atenção pessoal... o Furriel vem passando mal ... alguém o alivie da arma e das cartucheiras. Já mais leve e amparado no Galhanas continuávamos a andar. Perguntei ao Couto quando tempo faltava para o descanso. Respondeu-me de imediato : " Dez minutos ... tem de aguentar dez minutos". Perguntei: "Alguém tem uma “ucal"? (a Ração de Combate trazia uma embalagem de lata, que nós chamávamos de "ucal", que continha uma mistura açucarada de leite com cacau, para beber ao pequeno almoço). De imediato, o Siquenique abriu o seu saco-mochila e entregou-me uma "ucal", que logo bebi. Rapidamente comecei a voltar à normalidade. Chegou o período para descanso. Agradeci ao Siquenique e fiquei admirado por ele ainda a não ter bebido. A resposta veio do Arvanas : " Ele não bebe a “ucal”... e eu também não ... às vezes, quando abro a ração de combate, dou-lhe logo um chuto, para não me andar aqui a pesar no saco ... só que a gente descobriu que andam por aí uns meninos de cidade que gostam ... então, a gente troca a “ucal” por meio maço de cigarros decentes (o Arvanas e muitos Soldados que tinham o vício de fumar, porque o vencimento mensal era muito pequeno, fumavam o que o povo chamava de  “mata-ratos”.  Eram uns cigarros finos, mais baratos, mas de fumo agradável. Havia até endinheirados que os preferiam, ou porque gostassem ou por moda ou porque constava que prejudicava menos a saúde. As duas marcas que se vendiam mais: Definitivos e Provisórios. Dou-lhe a minha *ucal*. Pode ainda precisar dela. Aqui o compadre Siquenique gosta mais de uns goles de bagaço ao acordar ". O Siquenique esclareceu logo :" Goles não! O bagaço deve-se beber de uma assentada!". 







Quarta hora
Com o tempo de descanso a terminar, chega-se à frente, até nós, o Primeiro-Cabo Silva, homem robusto e sem medo. O Capitão, nas "operações" militares em que participava, não dispensa a sua presença junto dele. Por isso ficou com a alcunha de "o guarda costas do Capitão" Chegou-se perto de mim e disse-me : " Furriel Temudo ... o nosso Capitão manda que vamos mais devagar", e logo se retirou. Todos de pé, vamos continuar e ter em atenção a ordem recebida. O calor não abrandava e o chão mais quente que nunca transmitia o calor aos pés. Aliviei os atacadores pois parecia que os pés deixaram de caber nas botas. A minha preocupação pessoal era poupar a água. Posteriormente e já em ambiente de algum acolhimento, poderíamos dizer : - “como é que aquela água mal saborosa sabia tão bem”!. Mais tarde, viemos a saber que o Capitão, nesta quarta hora, se havia ressentido de uma lesão antiga nas costas, pelo que o Silva se ofereceu para levar consigo o conteúdo da sua mochila, tendo o cuidado de encher a mochila do Capitão, agora vazia, com  folhas juntamente com bocados de cartão das embalagens das rações de combate, para que, no caso de um eventual encontro com o inimigo, este não o pudesse identificar como  Comandante. Tinha decidido comer a última lata de conserva da Ração de Combate, uma lata de atum, na próxima paragem para descanso. A "ucal" que o Arvanas me ofereceu guardava-a para beber mais adiante, prevenindo outro desfalecimento que me pudesse suceder. De repente, aconteceu novo imprevisto: o Feiteirona caiu no chão. Mas era assunto sério. Não se podia levantar. Não deixava que ninguém lhe tocasse. O entendimento das suas palavras foi claro e dramático: " Não me toquem ! Ninguém me tente levantar !  Acabou!  Não dou mais um passo! Não consigo andar mais! " Sentado no chão, agarrava na mão uma poderosa e ameaçadora pedra. Homem extremamente resistente, companheiro certo de tantas missões, agora, neste momento, naquela situação que nós não compreendíamos. Meia dúzia de homens à volta dele sem saber como ajudar. Começou, lentamente, com uma mão a descalçar-se, com a outra continuava a agarrar a pedra que lhe enchia a mão. Terão passado cinco minutos nesta paragem forçada. Foi inevitável: o Capitão, ladeado pelo Silva, chegou-se à frente: " Temudo!  Por que parámos? Levantem o homem do chão!”. A resposta do Feiteirona não se fez esperar: "Ninguém me toque ... já parti a cabeça ao meu pai com uma pedrada ... a qualquer um de vocês, que não me é nada, faço o mesmo ... seja a quem for !" O Capitão voltou-se para mim e perguntou: "O que é que ele disse?... O que é que ele disse?" De imediato, referi ao Capitão : "Meu Capitão ... não se preocupe  com isto... nós vamos resolver a situação ... veja como o homem tem os pés ... estão cheios de bolhas..."  O Galhanas veio em meu auxílio e disse: "Meu Capitão .... a gente, aqui com o Furriel, vamos tratar do assunto ... eu vou aliviar o homem (carregar com a arma, as cartucheiras e os cantis)". Então, o nosso Capitão retirou-se. Ora... Vamos resolver ... vamos resolver... mas como?... com os pés com bolhas enormes ...  as meias com buracos ... Pedi ao Siquenique que fosse procurar o Enfermeiro Soares. Entretanto, ele aí  estava... e, com a sua bolsa de enfermagem, aproximou-se do Feiteirona, que o recebeu bem. Uma pomada, umas gases às voltas dos pés, umas meias novas que eu dei (levava sempre dois ou três pares de meias a mais, que pesavam pouco e podiam prestar bons serviços), uns comprimidos, uns goles de água, umas palmadas amigáveis nas costas, um cigarro e aí estava o homem de pé, pedindo logo a arma, que não consentia que alguém a levasse. Ele a coxear, até os comprimidos do Soares para as dores começarem a fazer efeito, estávamos de novo na nossa caminhada como se nada tivesse acontecido. O nosso Capitão nunca se me referiu a este caso posteriormente. Mas voltavam as preocupações com a falta de água e começa a crescer em mim a ansiedade em relação a encontrar a picada que estaria mais perto de ser atingida a cada passo dado. 

Quinta e última horas:
O inferno do calor continua. Pouco passam das 15:00. Desde o início da "Operação"  tínhamos percorrido três tipos de vegetação: mata, de vegetação muito densa; floresta, com por vezes aglomerados de árvores juntas de alturas superiores a dez metros; e selva, com vegetação densa e rasteira de muito difícil penetração, em ambiente muito húmido e escuro onde mal se via o Sol. Em breve ia comer a última lata de atum e também beber a "ucal" que tinha de reserva. Todos nós sentíamos a falta de pão. No início da "Operação" foi distribuído a cada homem, pelo menos, um grande pão casqueiro. Porém, passados dois dias, o pão restante parecia pedra e, de rijo, nem dava para fazer de almofada. Há uns dias atrás o Siquenique, com tristeza, exclamou: "vou aventar o pão ". Vamos caminhando, olhamos para longe  tentando descobrir a picada. A ansiedade apodera-se cada vez mais de mim fazendo crescer a sede. As conversas deixam de ter lugar. Só se pensa na picada. 
Apenas com um quarto de litro de água, vou tentar guardar a que tenho para não aumentar a angústia de me ver sem água nenhuma. O Galhanas segredou-me, apontando para um dos seus dois cantis : " Se vossemecê precisar pode beber uns goles valentes ". Esta boa vontade ficará para sempre na minha memória. Chegara a altura de dar conhecimento ao grupo de uma  dificuldade que teríamos de enfrentar e resolver em breve: no momento em que alcançássemos a picada teria de se saber se seguiríamos para a esquerda ou para a direita dela própria, a fim de encontrar as viaturas que nos aguardavam. E não podíamos contar com a bússola para nos orientar, nesta situação. Teríamos de ser nós a acertar e sem perdas de tempo, para permitir a continuação do andamento "normal" da coluna. O Galhanas logo me tranquilizou: "Não se preocupe... nós não vamos deixar você ficar mal ... confie em nós". O Feiteirona veio ajudar: " Isso para nós é fácil ... não se apoquente ". Após breve conversa resultou o seguinte: ficou entendido que a "queda natural do terreno", em relação à direcção que vínhamos a seguir, era de leve  mas de constante descida da direita para a esquerda, aliás, precisamente semelhante ao local onde as viaturas deixaram o pessoal para o início da "Operação" a pé, que é igualmente o mesmo onde nos aguardarão. Sendo assim, ao interceptarmos a picada, as viaturas teriam de estar para o lado direito dela. Mas poderia suceder que o local da intercepção da picada, que iria acontecer em breve, ocorresse à direita do local de estacionamento das viaturas. Neste caso, ao encontra-la, teríamos de voltar à esquerda, até as localizar. Como saber, então, ao encontrar a picada, se deveremos virar para a esquerda ou para a direita?   Um olhar  de quem "sabe ver e ler" indícios , tais como, e entre outros, a existência de rodados marcados no chão que denunciam a passagem de viaturas e o estado dos arbustos que crescem encostados aos lados da picada que se podem apresentar pisados e danificados após a passagem de um grupo de veículos.
O Primeiro-Cabo Couto aproveitou para trazer para a "mesa das preocupações" uma realidade que havia de ter em conta apesar de "os dados já terem sido lançados": - "Quando chegarmos á picada decerto que as viaturas não estão ali. Só por milagre!  Podemos ter que fazer centenas de metros ou alguns quilómetros na picada até as encontrar. Tudo vai depender da exactidão da navegação feita pelo Capitão até  ao momento de entregar o "serviço" ao Furriel Temudo (queria dizer: o cálculo do azimute a seguir, a partir do cálculo do local onde o Capitão se encontrava naquela altura); e  também depende do "serviço" do Furriel até se encontrar a picada (queria dizer: seguimento do azimute e acertos dos desvios  efetuados - correcção de deriva-)” . Para fazer face á nova situação, resolvi adiantar três homens uns cem metros que, ao darem com a picada, teriam tempo para a verificar no sentido de se prosseguir ou para a esquerda ou para a direita, sem que se perturbasse o andamento da Coluna. Guardei a bússola, pois eles os três, o Galhanas, Feiteirona e Arvanas, com este último à frente, há muito que tinham entendido o sentido do caminho e não tinham dificuldades em efectuar os desvios necessários impostos pelos obstáculos do terreno, com as devidas correcções feitas a "olho". São 16:15 horas, momento em que o Arvanas, ao longe, atira o barrete ao ar, faz piruetas e dá saltos,  anunciando, à sua maneira, que a picada estava à vista. A preocupação de não saber a que distância se encontravam as viaturas não me deixava alegrar. Pedi ao Siquenique que procurasse o Capitão para lhe dar a notícia, bem como dissesse que continuávamos a andar até perto das viaturas. Os três começaram a inspeccionar a picada e resolveram iniciar o caminho pela direita. O que tinha a ser feito estava feito e só nos resta andar e logo se vê. Não mais de seiscentos metros de andamento e o Siquenique deu o alerta: -"já se ouve o barulho dos motores das viaturas! ... estamos perto". Ruído fraco mas logo aumentando à medida que avançávamos. Agora, podia beber o resto da água guardada. Em breve tínhamos as viaturas à vista. Fiz sinal para o pessoal parar. Não foi preciso avisar o Capitão ... já todos sabiam. O Galhanas disse-me em voz alta:  "Quando chegarmos ao Grafanil ... vossemecê vai ter que pagar uma rodada de cerveja ... aqui ao pessoal da Secção". Chegar às viaturas ainda de dia era o objectivo do Capitão, e que foi alcançado.  Agora, ele, o Capitão, transmitia alguns procedimentos a cumprir pelo pessoal que, com rapidez, começava a subir para as viaturas. Muitos aproveitavam, entretanto, para beber água. Confraternizava-se com os condutores-auto que, cheirando a sabonete, apresentavam-se barbeados e com fardamentos limpos. A Operação ainda não tinha acabado. Havia ainda a fazer perto de cem quilómetros até ao aquartelamento do Grafanil. Ao chegar lá tínhamos todos de consultar a Escala de Serviço, pois a guerra continuava. Não fosse ter perdido o relógio, podia dizer que esta "estopada" de sete dias não tinha corrido nada mal. Não ia gastar dinheiro na compra de um relógio novo. Usaria, novamente, o que me ofereceram aos treze anos. Afinal era um bom relógio. Acendi um cigarro e, com um sorriso, pensei: - “Quem sabe se esta noite ainda vou a Luanda comer um bife com batatas fritas e beber umas cervejas? Quem sabe?”

(*) Nota:
Resumidamente:
Usei o significado clássico de Boceta/Bolsa/Caixa de Pandora.
Na Mitologia Grega, Pandora foi a primeira mulher criada por Zeus, destinada a agradar aos homens. Pandora, que tinha todas as graças e belezas, possuía uma caixa oferecida mas que nunca deveria abrir. Um dia, por curiosidade, não resistiu e abriu a caixa. Logo começaram a sair todos os Males que se espalharam pelo Mundo, só ficando, no fundo da caixa, a Esperança.
Queria dizer que o Enfermeiro Soares, ao abrir a bolsa de enfermagem, oferecia logo a esperança de melhoras e tinha lá dentro tudo que era preciso para tratar o pessoal com habilidade e conhecimento.



Fernando Temudo 
2015.