INSÍGNIA E LEMA

INSÍGNIA E LEMA
CONQUISTANDO OS CORAÇÕES SE VENCE A LUTA

terça-feira, 1 de abril de 2014

XXIII - MARCHA PARA SERPA PINTO

Coluna formada, lá vai o pessoal da segunda metade, sem Rádios nem Bússolas - que ficaram na Coutada entregues à Companhia que nos rendeu -, com uma Berliet na frente da marcha, por razões óbvias de segurança,  rumo ao Destacamento da Coutada do Luengue, local da nossa primeira pernoita. Recolhido o nosso Grupo de Combate já entretanto rendido pelos noviços, aí vamos nós, logo pela manhãzinha, pela picada que liga ao Rito, muitos quilómetros à frente, onde nos aguardará uma LDM (Lancha de Desembarque Média) da Marinha, com hora marcada para o dia seguinte. Ao anoitecer, o Capitão Santana ordena que paremos para descanso e também por razões de segurança. Embrenhamo-nos na mata, ainda tipo savana. Ao clarear, toca a acordar o pessoal para retoma da viagem. Apercebo-me que o Capitão está um pouco irrequieto, tenso mesmo. Tinha suficiente confiança com ele, respeitando-o, obviamente, quer como Comandante quer como humanista que sempre demonstrou ser. Pergunto-lhe: “Meu capitão, há algum problema?” Ele respondeu logo: “Oh pá, não sei para que lado hei de seguir. Não tenho bússola! Estamos tramados!” (o termo não foi bem este, foi outro mais militarizado). Eu respondi-lhe de pronto: “Mas eu sei!” – “Sabe, como? Você tem nariz de pombo-correio?”, disse ele. Habituado ao uso da minha inseparável bússola (comprada antes do embarque e que ainda hoje transporto sempre comigo como talismã) nas entradas da mata aquando das caçadas, pois, naquele tipo de vegetação, facilmente se anda às voltas, pensando estar a seguir numa direção certa, principalmente de noite, ao desviar de uma árvore e de outra a seguir, ao entrar na mata saindo da picada, naquela noite, instintivamente vi qual o azimute que seguimos. Disse-lhe, então. “Meu Capitão, tenho aqui no bolso um pombo-correio!”, e mostrei-lhe a bendita pecinha. Mirou-me sorridente e disse: “Porra, pá, você é um gajo mesmo muito organizado. Até nisso!”. Disse-lhe: “reparei que a picada seguia para noroeste. Nós virámos à esquerda, quando entrámos na mata. Partindo do princípio que a picada é a direito, porque não haverá aqui próximo qualquer obstáculo, o rio está longe, que eu vi no mapa que também tenho aqui, é só seguir o sentido inverso (e nós viemos na direção de aproximadamente 270º), e haveremos de encontrá-la algures. Quando isso acontecer, é só virar à esquerda”. Disse-me: “vá à frente, então!” e eu respondi-lhe: “Com certeza, se é essa a sua vontade, mas também posso emprestar-lha e o senhor devolve-mo-la na picada”. – “Também pode ser”, retorquiu. E assim se procedeu.

Minha bússola
Penso que ninguém saberá desta história, salvo se ele a tiver narrado a alguém. Pusemo-nos ao caminho, que a LDM dos Fuzos nos espera, para travessia do Rio Cuito, o mesmo rio da Coutada. Ele nasce no Bié, na Serra de Mozamba, e desagua no Rio Kubango, de que é afluente.


LDM 


Uma viatura de cada vez, mas carregada



                                                                                                 
Carlos Jorge Mota




2 comentários:

  1. "Penso que ninguém saberá desta história, salvo se ele a tiver narrado a alguém"

    Esta história eu conhece, tu mesmo me contaste há cerca de um ano, não sei se no Facebook ou no Skype...

    Um abraço amigo!
    FS.

    ResponderEliminar
    Respostas
    1. "conheço" en vez de "conhece". É um problema algarvio!!!

      Eliminar

Agradeço o seu Comentário, que vai ser monitorizado