INSÍGNIA E LEMA

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CONQUISTANDO OS CORAÇÕES SE VENCE A LUTA

terça-feira, 1 de abril de 2014

XXXI - MOXICO, DESTINO FINAL

Finda a Operação, regressámos à Estação de Cangumbe, para onde convergiram todas as Companhias do Batalhão. Novo Comboio Especial nos esperava para nos transportar para a Estação do Luso, cidade hoje denominada de Luena – nome do Rio muito próximo, afluente, pela margem direita, ainda em Angola, no Cazombo, do grande Rio Zambeze, que atravessa vários países, inclusive Moçambique –, capital do Distrito do Moxico, nosso destino final. Aproveito para procurar de novo o “Tatarelho” mas, mais uma vez, estava ausente … tinha ido a Silva Porto, a uma Consulta Médica. Nunca mais o encontrei … até aos dias de hoje. Não sei se ainda é vivo. Espero que sim.

Estação ferroviária do Luso
A mesma Estação, na atualidade

                        




                                                     
Chegados finalmente à Estação do Luso ficamos a saber que a nossa missão consistiria em dar proteção à construção duma estrada - com introdução de melhoramentos da picada já existente, nomeadamente o seu alargamento e corte de algumas curvas, para posterior alcatroamento - que liga o Luso a Vila de Gago Coutinho, localidade já muito próxima da fronteira da Zâmbia, a uns bons quilómetros abaixo do conhecidíssimo Quadrado do Cazombo, como era (ainda é) designado o território angolano que penetra no da Zâmbia, em termos geográficos. Distribuição das Companhias? É-nos dito que, para compensar o nosso isolamento nas Terras-do-Fim-do-Mundo durante quase um ano, a Companhia 2506, a minha Companhia, ficaria instalada dentro da BTR, Bataria de Artilharia de Campanha, nas imediações da cidade do Luso. As outras – CCS, 2504 e 2505 – iriam ser distribuídas ao longo dessa estrada, perigosamente conhecida pelas suas minas e emboscadas constantes, área cuja guerrilha atuante era a da UNITA e do MPLA, que se guerreavam mutuamente. As Companhias do Batalhão instalariam bases fixas, a 2505 no Canaje e a CCS, juntamente com a 2504, mais a sul, no Lucusse, e as suas tropas deslocar-se-iam na tarefa predeterminada, acompanhando as obras à medida que estas progredissem na quilometragem.

Cidade do Luso, totalmente plana
Estrada a melhorar e a proteger




         
                                                                         

               


Avançaram para a Estrada, rumo ao seu destino, e nós dirigimo-nos para a BTR em cujas instalações só havia lugar para as Praças. Como a distância ao Luso é de pouquíssimos quilómetros, os Graduados, não estando de serviço, teriam que dormir fora desse Quartel, pelo que houve necessidade de providenciar por alojamento. Havia um Hotel destinado a Oficiais, mas quase sempre lotado, pelo que os restantes Graduados e os que lá não conseguiram lugar procuraram alugar uma casa. Foi o que fiz, conjuntamente com outros, portanto, em grupo. O edifício ficava situado mesmo ao lado do do Comando da ZIL – Zona de Intervenção Leste – cujo Comandante era o então Brigadeiro Bettencourt Rodrigues, que, posteriormente, em 1973, já com o Posto de General, substituiu o General Spínola no CTI Guiné. Curiosamente, os quartos estavam colocados contiguamente ao Posto de Transmissões do Comando, apenas separados por uma parede, pelo que ouvíamos permanentemente os “cânticos” dos Operadores no som monótono de mensagens … até nos habituarmos a ele e já não nos incomodar.

Igreja
Luso Hotel




                 
                                                                                                              




Ironia do destino: na área do Lucusse, onde a UNITA fez várias emboscadas a pessoal nosso e colocou minas, foi precisamente o local onde Jonas Malheiro Savimbi haveria de ser abatido em 22.02.2002 pelas FAPLA (Forças Armadas Angolanas após a Independência). É no Cemitério do Luso (agora Luena) que ele se encontra sepultado.

Carlos Jorge Mota

2 comentários:

  1. "... área cuja guerrilha atuante era a da UNITA e do MPLA, que se guerreavam mutuamente." não terá sido bem assim, e, vou cingir-me apenas à Unita de Jonas Malheiro Savimbi: sempre se soube que era uma criação da PIDE/DGS, mas se houvesse dúvidas, remeto-vos para o breve historial da guerra no Leste de Angola, narrado pelo General Espirito Santo, então Major, Chefe da Secção da Acção Psicológica/Assuntos Civis.

    "A UNITA, com o seu líder Dr Jonas Malheiro Savimbi, desde 1968 que se encontrava implantada no interior do território e com difíceis apoios externos. Em 1971 tinha-se fixado numa área de difícil acessibilidade (a falsa Serra do Munhango), nas fronteiras dos distritos do Moxico e Bié. Com cerca de 3 000 indivíduos sobre o seu controlo, os guerrilheiros atingiriam os 300 efectivos, deficientemente armados. As dificuldades de vivência levam o Dr Savimbi a fazer uma aproximação com o Comando da Zona Militar Leste. Pretendendo colaborar com as Nossas Tropas na luta contra o MPLA, essa colaboração foi materializada na Operação Madeira. O Comando da Zona Militar Leste fixou uma área rigorosamente limitada para actuação da sua guerrilha contra o MPLA,..."

    Isto é o que diz este oficial superior, onde se pode ver uma fase da colaboração, mas esconde, mesmo assim, como foi criada a Unita...
    Podem ler toda esta resenha histórica em:
    https://www.revistamilitar.pt/artigo.php?art_id=467

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  2. Seguramente que o conteúdo do blogue está correcto. Documentei-me sobre esta matéria antes da escrita, pois detenho um manancial de livros e artigos subsidiários soltos sobre este tema.
    É falso que a UNITA tenha sido criada pela então PIDE. Ela resultou, sim, duma dissidência no seio da FNLA com Jonas Sidónio Malheiro Savimbi como seu Chefe.
    O que aconteceu – e daí a frequente alusão a esse embuste – foi que, quando o MPL A abriu a designada Rota Agostinho Neto (III Região Militar), o então Comandante-em-Chefe (portanto dos 3 Ramos das FFAA), General Costa Gomes, explorando a rivalidade e luta armada directa entre a UNITA e o MPLA, que disputavam ali a sua área de influência, e porque não dispunha de efectivos suficientes na RMA para actuar naquele novo Teatro de Operações contra o MPLA, através de emissários (um Padre, cujo nome sei mas omito, e em coordenação com os Madeireiros), encetou e concretizou um Acordo com a UNITA de não-beligerância entre as NT e aquele Movimento, inclusive com fornecimento de material – à altura só do conhecimento de Altas Patentes, mas hoje sabido ao pormenor (até através do CFB foi entregue armamento).
    Esse Acordo manteve-se activo até à substituição daquele Oficial General pelo General Luz Cunha, que chegou a visitar a Coutada de Mucusso (está postada no Livro FARDA OU FARDO? uma fotografia em que ele é lá visível), mas na qualidade de Comandante da RMA (Exército). Este General entendeu que tal Acordo não era desejável (talvez a correlação de forças naquele terreno à época já nos fosse favorável ) e deu-o por extinto.
    É nesta fase de alguma indefinição/desconhecimento para quem estava alheio às resoluções nos bastidores que a UNITA faz uma emboscada às NT e provoca quase 20 baixas. Só escapou um elemento, que fugiu por mata dentro, pois eles liquidaram um a um quem ainda estivava vivo. Acto cobarde e desprezível, feito numa tentativa vã de afirmação territorial e de anular o desprezo que ela, UNITA, estava a sofrer por parte da OUA por alegadamente estar aliada ao Exército Português – o que era internacionalmente público.

    http://www.guerracolonial.org/index.php?content=327

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